O médico e o padre

Nestes tempos de atenções redobradas com a saúde pública e seguidos embates entres profissionais médicos e agentes políticos a respeito dos melhores e mais eficazes cuidados  sanitários, vale a pena relembrar episódios antigos aqui acontecidos. Para dizer que esses embates aconteciam  antes em Itajaí e tinham já o viés político também.

O médico a que este artigo vai se referir era o Dr. Pedro Ferreira e Silva, baiano chegado em 1886 e que ficou sendo o primeiro médico a ter residência fixa na cidade. O padre referido, o Vigário João Rodrigues de Almeida, responsável pela Paróquia de Itajaí, desde 1877, filiado ao Partido Liberal, tendo sido deputado provincial. O padre Almeida, carismático e admirado pelo povo,  na falta de um médico, atendia aos doentes que o procuravam e até prescrevia remédios. Durante a epidemia de 1878, tinha recebido elogios públicos por prestar serviços “não só como sacerdote, como também serviços médicos”. Ambos eram homens de opinião e muito cientes de suas posições.

Aconteceu que o Dr. Pedro Ferreira, no ano seguinte a sua chegada, portanto, 1887, sentira-se incomodado com a pretensa interferência do Vigário no seu trabalho de médico. E, mais ainda, com presumíveis comentários desairosos contra ele. Resolveu, então, tirar tudo a limpo. Escreveu carta ao Padre Almeida, em que dizia haver quem desconfiasse que três dos seus pacientes foram tratados pelo Vigário, “ainda mesmo servindo-se de medicamentos de uso vulgar” e pedindo-lhe resposta a fim de que todos conhecessem a verdade, porque pretendia publicar as cartas.

O Padre, tratando-o de “prezadíssimo amigo e senhor”, foi pronto ao declarar que: “Garanto a V.Sa. e afirmo mesmo, sob minha palavra de Sacerdote e até invoco a Deus por testemunha, que não só é falso tudo quanto a meu respeito se propala, mas também que, desde a estada de V.Sa. nesta cidade de Itajaí, jamais mediquei a quem que fosse. Sempre fiz e tenho feito as melhores referências a V.Sa. e se correm algumas versões menos confessáveis a tal respeito (o que eu ignoro) só pode advir de espíritos mal intencionados. Queira V.Sa. estar sempre de sobreaviso contra estas mesquinharias, pondo sempre à margem qualquer ocorrência no sentido aludido.” E acrescentou: “Desta minha ingênua resposta pode V.Sa. fazer o uso que lhe aprouver.”

Das duas cartas publicadas no jornal “A Liberdade”, do dia 3 de julho daquele ano e editado em Itajaí, restou comprovado que o padre Almeida antes exercia mesmo a medicina caseira com geral agrado de seus paroquianos. Com a chegada do Dr. Pedro Ferreira, ele vinha se abstendo, embora fosse ainda procurado e consultado. O médico, que se revelou excelente profissional,  de sua vez, quis marcar território e deixar claro ao popular vigário que, de ora em diante, era a ciência e não o sacerdócio que haveria de cuidar da saúde dos itajaienses.

Vale, por fim,  ponderar que ambos, o médico e o padre, tinham,  além de suas vocações particulares – medicina e sacerdócio -, uma outra em comum e que os rivalizava: a política!

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