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carpintaria de ribeira

Indústria náutica e 
carpintaria de ribeira

Deu no noticiário local e do estado, na semana retrasada, que um grande estaleiro nacional virá a se instalar em Itajaí, com a promessa de gerar 300 novos empregos.
A imprensa e autoridades municipais, comentando a notícia, destacaram que o município de Itajaí atualmente se transformou no maior polo da indústria náutica de Santa Catarina. Três grandes estaleiros que já constroem embarcações de lazer estão sediados aqui e, por isso, o estado de Santa Catarina responde por 60% de toda essa produção brasileira. Já o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda gabou-se de que “Itajaí é a cidade que oferece a melhor mão de obra especializada na construção naval de grandes, pequenas e médias embarcações.” E acrescentou que no município, desde grandes estaleiros até pequenos reparos, existem mais de 200 estabelecimentos prestadores de serviços de construção náutica.
Pois cabe agora a pergunta: donde e desde quando advém a expertise itajaiense com a construção naval? A história da cidade tem a resposta. A atividade é mesmo anterior à criação de Itajaí em 1824, porque essa lida remonta possivelmente ao final do século XVIII, quando na foz do rio Itajaí-açu se estabeleceram os primeiros carpinteiros de ribeira. Assim eram chamados antigamente os construtores navais, porque trabalhavam nas margens baixas dos rios, as ribeiras. Esses primeiros carpinteiros de ribeira aqui se estabeleceram, por conta da existência de excelentes madeiras próprias para a construção de embarcações e provavelmente teriam vindo da região de Cananéia e Iguape, onde havia uma forte atividade de construção naval, desde o século XVII. Por exemplo, os ancestrais de José Ignácio da Silva – mestre Zé – patriarca de uma tradicional família itajaiense de construtores navais, cujos descendentes ainda atuam no ramo (Estaleiro Felipe Ltda.), eram de Cananéia.
A carpintaria de ribeira de Itajaí foi citada por Aires de Casal, fundador dos estudos geográficos brasileiros, em sua obra Corografia brasílica, de 1817, o qual faz referência às boas madeiras existentes nas matas do rio Itajaí, próprias para a construção de barcos. Vale notar que no documento em que em 1824 se fez a doação do terreno para a construção da primitiva capela do Santíssimo Sacramento, com a qual se deu início ao povoado de Itajaí, os doadores constaram que o terreno se situava no “lugar chamado Estaleiro”, que vem a ser agora a praça Vidal Ramos. É a comprovação da presença desses lugares de trabalho dos carpinteiros de ribeira na foz do rio Itajaí-açu.
O carpinteiro de ribeira cortava a madeira, falquejava, cepilhava, ajustava, travava e montava a embarcação. Quando acabada, ela recebia então o minucioso trabalho do calafate, a quem cabia fechar todas as frestas do costado e do convés. Essa mão de obra especializada, desde então, criou vínculos com Itajaí.
Pode-se dizer, com certificação histórica, que a indústria náutica é uma das mais antigas atividades econômicas da cidade. O empreendedorismo dos proprietários de estaleiros e “a melhor mão de obra especializada” em construção naval, que Itajaí oferece, vêm sendo apurados por mais de 200 anos de tradição, competência técnica, capricho e constante atualização.

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