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Poesia de Maria Paulina P. da Silva

Eu que já fui rainha
Já fui senzala
Já fui desejo
Ainda sou estupro
Ainda estou presa
Ainda morro,
eu morro mais!
Eu que já fui vendida, comprada, trocada
Sigo humilhada, sozinha na escola, no baile e nas praças escuras,
nos vagões e nas avenidas ainda sou abusada.
Eu que fui careca, com piolho e de lenço
Sigo alisada, de “lace”, “Kanekalon”, alongada
Eu que ao lado da fogueira dancei samba de roda
Sigo sambando nas escolas de samba e muito bem, obrigada.
Eu que pari escravos, libertos, bastardos
Preciso parir facilmente, “não foi bom fazer?” gritaram
Eu que sou Maria, Marielle, Pereira, sou Silva ou outro nome de árvore ou de “sinhô” que me deram
Começo a me levantar, discutir, questionar, amar com menos medo, me formar
E contrariando olhares sombrios, deixo meus crespos cabelos desafiarem as formas.
Não, nossos cachos nem sempre balançam, mas nós também já não balançamos tanto porque nossos braços estão mais dados.
A necessidade foi quem nos uniu.
Ass: Mulheres Negras do Brasil
Esta poesia visa clarear nossos olhares sobre um tema que ainda corre obscuro na sociedade brasileira, embora se repita ao longo de muitos anos.
É sabido e chega a ser repetitivo tornarmos público que desde a escravidão, os negros vieram escravos de África, são hostilizados e estigmatizados de incontáveis maneiras. Com a mulher negra não seria diferente, tratadas como animais, a relação mais óbvia a ser estabelecida era inicialmente a de reprodutora, “boa parideira” e por consequência a de símbolo sexual. Sua anatomia diferenciada das mulheres não negras da época, amparada pela teoria da Eugenia de Francis Galton, acabou por praticamente perpetuar essa teoria que serviu muito bem tanto para a escravatura, quanto para o sexismo e o machismo da época. Sendo assim, o fato da mulher negra tornar-se objeto de desejo econômico e sexual sem ferir suscetibilidades é até hoje, um “Fato Social”de Dürckhein, ou seja: naturalizou-se, não cabe vistas a nós, agride apenas as vítimas que por tempos sofreram caladas a subjugação além do preconceito e do racismo que impregnam a sociedade brasileira.
Poderíamos alertar a comunidade itajaiense para o fato de que 66% dos feminícidios atingem mulheres negras, que 62,8% das mortes maternas são também de mulheres negras. Que as mulheres negras tem até três vezes menos chances de receber anestesia durante o parto.
Mas queremos falar das mulheres negras que com esforço sobre humano de existência, o que vai além da resistência, porque é necessário primeiramente estar vivo depois para resistir.
De acordo com o que diz a filósofa Ângela Davis “Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, tamanha força deste ser.
Importante ressaltar que muitos grupos sociais africanos são organizados e gerenciados por matriarcas e que no Brasil por isto e porque muitos dos jovens negros são assassinados, ou presos, este “matriarquismo” se repete.
Lembramos aqui, nestes 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres negras de Itajaí, são tantas e muitas que apenas por este motivo, eu mulher negra hoje posso estar sentada escrevendo este artigo.
Mulheres das famílias: Pereira, Lucas, Farias, Silva, Belizário, Folgado, Prateat, Cardozo, Andrade, Farias e ainda tantas outras famílias que com suor destas mulheres em suas máquinas de costura, em casa de família, na lida com pequenos animais domésticos ou ainda nos tanques de lavar roupa participaram ombro a ombro do sustento e principalmente dos seus filhos.
Além disto os encaminharam à educação, iniciando a abertura das portas da sociedade de Itajaí para estes jovens e ainda uma nova geração de mulheres, professoras, atrizes, enfermeiras, médicas, empresárias, poetas e ainda mães e como suas genitoras, negras que existem e resistem.
Axé a todas mulheres! Axé às mulheres negras do Brasil! Que possamos cada vez mais nos unirmos a fim de sermos sempre tudo que pudermos e desejarmos ser.
Maria Paulina P. da Silva
Enfermeira
Supervisora de Áreas Prioritárias da SMS de Itajaí
Responsável pela Saúde da População Negra e Saúde do Idoso de Itajaí

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