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Cultura imaterial afro-itajaiense: homenagem à centenária Yalorixá Maria Luiza Moreira

Cultura imaterial afro-itajaiense: homenagem à centenária Yalorixá Maria Luiza Moreira
Revisitando meus arquivos, me deparei com uma entrevista realizada a octogenária Maria Luiza Moreira. Foi o suficiente para eu voltar no tempo, e como recordar é refazer, fui refazer uma entrevista realizada com ela, em Camboriú, com o então companheiro de pesquisa no projeto Memória dos Bairros da Fundação Genésio Miranda Lins, Daniel Galm, professor de História [hoje mestrando na Universidade de Coimbra – Portugal]. Na época estava presente também Almir Meireles, umbandista e articulador de movimentos sociais em defesa das religiões de matriz africana na região. Lembro-me como se fosse hoje, era um dia 5 de maio de 2006, mês em que na umbanda se celebra os Pretos Velhos e se pergunta muito acerca da abolição formal da escravidão, acerca do dia seguinte ao 13 de maio. Pois bem, ela nos recebeu com gentileza, em sua modesta residência. Sentada numa rede, foi revisitando a sua trajetória de vida. Na época ela estaria oficialmente com 90 anos. Perguntada sobre a origem do seu nome, ela contou que foi em homenagem à sua avó, falou da tradição dos antigos, e de quando Zeppelin sobrevoou os céus do Itajaí, aqueles momentos ficaram guardados nas paredes da memória de dona Luiza, e a entrevista foi um dos momentos de desalojá-los. Uma das preocupações do programa Memórias dos Bairros idealizados na época pelo superintendente da Fundação Genésio Miranda Lins, professor Dr. José Roberto Severino e este que escreve este artigo, foi justamente recuperar a História de Itajaí e região a partir de outra perspectiva que não apenas dos grandes homens de negócio ou do ponto de vista meramente político. Então buscamos pessoas denominadas comuns para contarem suas versões da história. Contou-nos dos avós, ao mesmo tempo em que contextualizava a região do Itajaí.
[…] Meu avô era uma pessoa boa, entendesse? Não tinha nada que dizer dele, ele era uma pessoa de roça, era uma pessoa que trabalhava puxando madeira, a estrada de ferro quando foi feita, a estrada de ferro, que passou lá na Boa Vista, ele trabalhou na estrada de ferro. Eles faziam aquela balsa de madeira para atravessar para Itajaí […]
Investigando a escravidão e o pós-abolição a partir das tradições orais, evidenciamos outras narrativas semelhantes à de Mãe Luiza, como por exemplo, a narrativa do senhor Idalício, realizada na década de 90 e que se encontra na obra Caetanos & Caetanos: tradição oral e História (em preto & branco). É importante lembrar que ela conheceu os familiares de Idalício, da região da Pedra de Amolar, lugar de memória para muitos afro-itajaienses, conforme depoimentos colhidos e contidos em Negras Memórias. Os avós aos quais ela se refere eram Júlio Raulino e Damásio Nascimento, nome que identifiquei no processo de organização dos trabalhadores portuário de Itajaí, na organização da Sociedade Beneficente XV de Novembro de 1906 e da Sociedade Beneficente dos Estivadores do ano de 1922. Em ambas entidades, a presença de descendentes de escravos, como nas organizações de trabalhadores portuários de todo Brasil foi marcante. Os objetos e documentos guardados dos avós por Mãe Luiza se perderam, muitos em decorrência das cheias das quais ela também fora vítima. Eram objetos que evocavam a memória, o passado deste grupo social, se estivessem no Museu Histórico de Itajaí, com certeza estariam preservados. Revisitar as memórias de Mãe Luiza a partir da mensagem de Sandro Silva foi um prazer imenso, espero que ao retornar a Itajaí eu tenha o prazer de encontrá-la com saúde e gozando de muita paz. Vida longa, Mãe Luiza! Que nossos ancestrais estejam sempre contigo, como estiveram ao longo de sua experiência centenária de vida.
José Bento Rosa da Silva
Militante no Núcleo Afro Manoel Martins dos Passos da Foz do Itajaí. Prof. Dr. em História. Com estágio pós-doutoral na Universidade Jean Jurès – Toulouse [França] do programa de graduação e pós graduação na Universidade Federal de Pernambuco.

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