Um dia caem

Desde os primórdios utilizamos máscaras para ser o que não somos. Máscaras foram várias vezes usadas pelas pessoas como passaportes para mundos imaginários, como um meio de transmissão de histórias e como uma explicação de fatos naturais inexplicáveis.
Noutros tempos, a máscara escondia os rostos em festas regadas com drogas e sexo livre. A máscara é utilizada em carnavais ou bailes luxuosos. Seu dono ficava imune das línguas ferinas. Dava o poder de agir no anonimato.
Nossa cultura ensina, dia após dia, a utilizarmos as máscaras que nos eximem de assumir palavras e permite que circulemos em todos os lugares e grupos. Utilizamos máscaras cotidianas para nos protegermos, para não sermos afetados pelos movimentos infinitos que sugam o que há de melhor em nós. A Máscara não é mais estranha ao nosso rosto, é igual em traços, mas diferente em posturas.
As máscaras exercem um fascínio em quem as vê e um esconderijo para quem as usa. Diferente dos dias de carnavais ou rituais, nosso dia é coberto por máscaras para falar com o gerente do banco, pagar contas, ouvir o chato que fala sem parar, dizer que sim quando se quer dizer não, usá-la em uma reunião sem sentido que obriga tua presença e por aí vai. São ferramentas de ilusão e dissimulação.
Você, leitor, deve estar perguntando-se: qual o sentido em ler sobre a história das máscaras? Criamos máscaras para nos adaptarmos ao meio social. Para tirar as máscaras precisamos nos desfazer hábitos, vícios, consumos e desejos. A máscara trata de uma necessidade de proteção ou uma tentativa de ser ouvido sem ser reconhecido. Quem não as usa que pare de ler essa crônica!
E toda essa ladainha capitalista exige a competitividade e a capacidade de nos apresentarmos bem-sucedidos no trabalho e na vida pessoal. Os sentimentos? Devem esperar sem mostrarmos a fragilidade humana. O fato é que nós, animais-humanos não podemos expressar os sentimentos. As máscaras tornam-se úteis para a ‘boa convivência’. As máscaras caem – inclusive de super-heróis – e o rosto surge como ele realmente é. Quem tomará a iniciativa em dias de corrupção, roubo e falcatruas? Tenha coragem de, ao menos, despir a sua máscara. Os outros são os outros.
Ahhh, uma curiosidade que sempre me incomoda por considerar “quase inacreditável”: em média, mentimos uma vez a cada 10 minutos de conversa. Mentiras que todos nós dizemos em nosso cotidiano por educação, preguiça ou desleixo. Podemos usar tantas máscaras que corremos o risco em esquecemos de quem somos.

Fica a dica:

Gosto do filme “O escafandro e a borboleta (2007). Direção Julian Schnabel) que conta a história do editor-chefe da revista Elle, Jean-Dominique Bauby, que aos 43 anos tem um derrame devastador que o deixa paralisado e dependente, algo frustrante para um homem conhecido por aproveitar demasiadamente a vida. Nessa situação – em que só o olho esquerdo se move – ele enxerga as máscaras cotidianas e acha um modo de escrever um livro sobre a vida.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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