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Um cronista na janela – parte I

Você que me encontra toda semana nas ESQUINAS topa me encontrar pela Janela? É o que nos resta nesses tempos de isolamento. E muita calma para não sermos engolidos pelo tempo, esse monstro que toma nossas vidas quando falta ou quando está sobrando em demasia.
Não nos livramos de hábitos tolos ou que prejudicam os outros simplesmente jogando eles pela janela. Mudanças são feitas e sentidas aos poucos, exigindo um cadinho de calma. Um isolamento forçado pede que olhemos para os hábitos cultivados com o tempo. Ganhei uma chance de rever alguns: otimizar meus dias e não perder tanto tempo procrastinando diante de alguma tela; observar minha alimentação para ter energia física e mental; brincar com o filho ao invés de dar a ele um doce ou desenho animado na tela disponível. Mas onde coloco o piloto automático da rotina?
Normalmente acordo cedo. Saio da cama, tomo água, faço higiene pessoal e dou trela ao meu vício pela cafeína. Em isolamento achei que uma fruta cabia bem para acordar de leve, um alongamento no tapete ativaria a circulação sanguínea, uns instantes de meditação permitiriam organizar minha rotina para que o dia rendesse. Lá fui eu. Primeiro dia ok, segundo dia ok, terceiro dia não acordei cedo, quarto dia esqueci de tudo e fiz um mate primeiro, quinto dia fui tomado pelo medo quando vi que o relógio corria, já era de tarde e eu sem saber se devia comer maçã ou banana. Que medo fiquei de mim.
As últimas noites estão silenciosas em Itajaí, sem carro ou baladas. Mas, da janela de minha casa, ouço os moradores de rua – sem assistência, sem teto e riscados das preocupações governamentais ou de cidadãos de bem – que falam alegremente na praça próxima. A noite da cidade silenciosa é animada pelo riso dos invisíveis sociais. Paradoxal e, ao mesmo tempo, indignante. Em tempos de isolamento, janelas servem para bater panelas, cantar ou gritar alto o que engasga e oprime.
Às vezes o galo canta ao longe diante de minha janela e gatos namoram no muro ao lado. Vejo florescer a bromélia e as folhas verdes do pé de goiaba. As vezes um avião passa, uma gaivota procura o trajeto no ar e assisto um ultraleve colorido circular o morro do Atalaia. E, quando as nuvens permitem, vejo a lua cheia nascer exuberante bem diante de minha janela. Descrevo essas imagens e lembro que já ouvi dizerem que eu falo de um modo tão poético que elas não podem existir assim, sou eu quem as inventa. Não, não. O Isolamento pode ensinar a olharmos o mundo com mais calma, assim podemos ver onde a poesia habita.
Não posso sair, mas abri a janela e deixei que a vida se ocupasse do resto. Há um mundo ali fora.

Fica a dica:

Confira o projeto Palavra d’água. Fala de memórias da cidade de Itajaí e conta o processo de escrita do escritor. Veja no endereço http://palavradagua.tracosecapturas.com

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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