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Um convite à arte em tempos infernais

Em tempos controversos como esses, fazer arte é um ato de resistência. O artista purifica o ar com criações quando a ditadura da razão insiste que sucesso, empreendedorismo e bens adquiridos medem a riqueza de uma pessoa. Só é rico quem consegue usufruir tudo o que possui. De que vale uma casa cheia de móveis e eletros quando passamos o dia inteiro cedendo nosso tempo aos outros?
Resistentes, audaciosos e belamente criativos são aqueles e aquelas que decidem viver tendo a arte como parceria diária nesse interminável recomeço. O trabalho do artista é atemporal quando provoca seu público à fruição. Habitam as coxias do teatro, ocupam as paredes e muros, criam profundas melodias olhando para a vida, dançam em corpos ágeis, insistem em publicar livros quando o que menos se faz hoje é ler. Resistem. Resistem.
No século XXI considero que a criatividade, a alegria e o afeto são armas poderosas para atingir a cultura do consumo em cheio. O riso, os cuidados com aqueles que nos cercam (isso inclui o entorno onde moramos) e a arte são espaços de resistência. Para tanto, sou adepto de lugares de resistência. E, sem dúvida, os coletivos de arte são um deles.
Não são novas essas práticas de criações coletivas em arte. Algumas delas datam dos anos 70 quando o teatro e alguns músicos produziam em comunidades que remavam contra o sistema comercial que engolia a arte, oferecendo-a apenas como produto. Aos críticos do universo do consumo é reservada a chacota, piadas ou são caricaturados em programas de humor para, logo a seguir, virarem produtos como roupas, acessórios ou bonequinhos fofos. Um exemplo? Hippies que viraram roupas, incenso ou músicas vendidas em shoppings.
Os coletivos de arte correram o risco (sim) de virar moda perdendo sua força reivindicatória. Mas reafirmo coletivos que problematizam o espaço da arte ou a privatização dos espaços públicos. Gosto de coletivos que fazem marketings de guerrilha, deslocando-se pelas frestas desse sistema que homogeneiza a diferença. Daqueles que distribuem livros pela internet ou fazem performances na rua, ou dos vídeo-ativistas que fazem filmagens in loco denunciando agressões à humanidade. Confio em coletivos de arte que tomam posturas políticas (não leia aqui partidárias) sobre os desmandos contra a ética, a humanidade, o respeito às diferenças.
Arte é instrumento de resistência à massificação da cultura. Crie. Resista. Participe. Assista. Seja, humano! E ser, humano, incomoda demais. Confira o grupo Pele Coletiva, do Vale do Itajaí Mirim, que dá um grito por meio da criação artística.

Fica a dica:
Exposição: Quando Acordei já era Noite
Na Casa da Cultura Dide Brandão em Itajaí
Aberta até o dia 6 de Maio

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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