Silêncios

Dia após dia tenho perdido a retórica e aprendo a ouvir. Dia sim, outro também apreendo o que me chega. Ouço mais do que falo.
Percebo os sons que me cercam e, como um discípulo, ouço o que o mundo-mestre diz, sinto que pouco sei, quase nada sei. Ou se sei, é melhor ouvir sobre o que ainda não sei. Já pedi tempo demais aprendendo coisas sem nenhuma importância e foi exatamente isso que me deixou à margem de tantas coisas interessantes.
Sabia que nós brasileiros ficamos em média 9 horas e 14 minutos por dia conectados na internet? Estamos em terceiro lugar no mundo, perdendo apenas para a Tailândia e Filipinas. Quando falo de coisas sem nenhuma importância talvez esse dado faça cada um de nós rever nosso tempo nas redes sociais.
Nossa relação com o mundo é feita de silêncios e sons. Por anos falei demais e, consecutivamente, ouvi de menos. Foi demorado aprender a escutar. Aprendi com músicos que, ao acurarmos o ouvido, somos agraciados com instantes de contemplação.
A semana iniciou dando pausa para as palavras e olhos atentos para o mundo. Ouvidos abertos para sua dinâmica. É no silêncio que sinto a força infinita que possuem as palavras. Dizer pode ser conciliador, pode ser explosivo. As palavras ganham uma força grandiosa depois do silêncio. O silêncio torna-se ameaçador.
O celular e fones nos ouvidos, a internet, o trânsito, as múltiplas telas, inibem o silêncio. Que vai ficando raro, tão raro a ponto de considerarmos que ele deve ser banido. É tão raro que ganhou um dia comemorativo. Ontem, 7 de maio foi o DIA DO SILÊNCIO. Imagine-se dando um presente no dia do silêncio? Qual seria? A quem daria?
Eu pensaria em uma música como presente. Afinal, o que seria dela sem o silêncio? Uma melodia não seria agradável sem ele. Daria momentos para que você se escutasse. Daria um ruído para que seu silêncio ficasse interrompido e percebesse a ausência dele. Daria um minuto de silêncio para que suas palavras voltassem com força e furor para contar ao mundo que tudo está como sempre esteve. Precisamos repensar as palavras. Não temo mais o silêncio, são as palavras que me deixam aflito.
Prefiro primeiro o silêncio produtor de pensamentos próprios para depois ver o que fazer com meus desejos. É o silêncio que guarda as memórias e não deixa que as perturbações do mundo te engulam.
Deixo uma dica musical que pede silêncio. Uma pausa para ouvir melhor. Afinal, a música sempre é o transbordamento do silêncio ou daquilo que não pode ser dito com palavras. Faça adormecer o seu tempo e abra os ouvidos.
Fica a dica:
CD Suíte Caiçara de Duo Backer e Thales Nunes, produção Café Maestro Produções, com Patrocínio da Lei de Incentivo à Cultura de Balneário Camboriú.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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