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Rir é revolucionário

Conto a vocês que admiro profundamente quem ri alto, forte e toma conta dos lugares com seu riso aberto, vivo e envolvente. Tenho uma amiga que ri tão forte que falo asneiras só para presenciar a cena e rir junto.
Uma afirmativa sempre é autoritária, mas vou arriscar com essa: rir junto com quem gostamos reduz as diferenças. Afeto exige reciprocidade e o riso aproxima.
Com quem vamos rir hoje?
Houve um tempo na história ocidental em que o mundo medieval proibia o riso na crença moral de que ele mata o temor e, consecutivamente, enfraquece a fé. Por mais irônico que o pareça, caro leitor, tenho uma profunda fé de que o riso é uma arma incrível para lidarmos com as adversidades da vida.
Se o riso mata o medo, tenho fé de que a revolução deve ser séria, mas não carrancuda. Alegria é resistência, é vida. E só há vida quando permitimos que as diferenças sejam afirmadas. O riso é alteridade. Rir COM a vida e não DA vida alheia.
O historiador J. Le Goff um dia falou: “Diga-me se você ri, como ri, por que ri, de quem e do que ri, ao lado de quem e contra quem, e eu te direi quem você é”. Então, riso é assunto sério.
Falar sobre o riso é coisa séria demais, tanto que temo errar as palavras. O riso é tema sério porque é uma grande arma contra as forças que entristecem nosso dia e ameaçam nossa existência. Tanto que não consegui escrever uma crônica sobre o tema com a alegria esperada por quem lê.
Dentre tantas desventuras por aí, que motivos temos para rir? E há maior motivo do que nós mesmos? Veja eu: persegui ideais na vida até recentemente. Visitei espaços de fé em deuses ou ideias políticas, acreditei em movimentos hippies, punks e anarquistas até me dar conta de que eu fugia da minha própria vida. Só rindo muito para me aceitar como alguém que levou metade da vida procurando a resposta que estava aqui dentro. Tolo. Kkkkkk.
Hoje consigo abraçar o ridículo de mim, desnudando aquilo que o propalado poder quer que a gente acredite: que somos incapazes e frustram nossos desejos com ofertas sempre maiores daquilo que damos conta de comprar ou carregar.
Curioso caso esses humanos, não é? Criam máquinas e instituições que frustram a própria vida. Rir é revolucionário quando somos capazes de enfrentar as neuroses da vida e tornar nossa alegria tão potente a ponto de responder à altura para esse sistema que promove a tristeza e a frustração.
Compre e será feliz. Isso é balela para tolos.
Lembre-se sempre que o riso mata o medo.

Fica a dica:

O Livro do Riso e do Esquecimento (1979), de Milan Kundera, junta algumas histórias repletas de drama e as coloca, satiricamente, frente a um período totalitário onde a liberdade individual é cerceada.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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