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Preto vai ao teatro?

“Foram vocês que mataram o artista com a negligência, o sarcasmo e a burocracia”, gritou o velho ator lá no fundo do teatro. Forcei o olho para trás sentindo que cada passo era uma escolha para assumir um projeto. Matamos dia após dia a possibilidade de criação quando nossas escolhas são equivocadas.
O centro nervoso dessa conversa está nas utopias que constroem lugares de sonhos, de revoluções com outras relações humanas que incluam, que afirmem diferenças, que acolham.
Teatro é a manifestação primeira da humanidade quando um grito, uma máscara ou um gesto ativam a sensibilidade do ser político que somos. Escolhas são políticas. Vida é feita de escolhas, portanto somos políticos. E não me venha com a ladainha “Não gosto de política”. A frase já é profundamente política.
Vida e diferenças são a tônica da conversa aqui. Diferenças precisam de políticas públicas de afirmação, escolha que habita os meus recantos, meu mundo, minhas relações com filhos, amigos, cidade. A cidade como espaço de convivência com o outro, com o diferente, sem enfrentamentos ou esnobismos de discursos que colocam este ou aquele no lugar ou fora dele. Verdades nem sempre reais, mas inventadas.
Dia 1° de maio é o dia mundial do trabalhador desde 1886, quando protestos e mortes marcaram uma greve geral pedindo redução da jornada de trabalho. E, coincidência ou não, abre hoje o Festival de Teatro Toni Cunha com um espetáculo que desafia o público a ressignificar o nosso lugar na sociedade. Quando a curadoria seleciona espetáculos com personalidade, quando atores, diretores, iluminadores, figurinistas, cenógrafos, produtores e maquiadores trabalham com arte, tomam postura. É um ato político. Gosto profundamente de quem toma postura.
Que vozes queremos ouvir? Há lugar fora da mercadoria? Podemos viver outra vida que não a ofertada em fast-foods, múltiplas telas ou shoppings? O teatro é política quando desloca nossos sentidos, estimula-nos a ver melhor o entorno ou quando assume que tudo precisa ser dito, com dores ou não. Vá ao teatro e me escreva contando sobre sua experiência.
No espetáculo PRETO o que move a cena é a pergunta: como pensar as diferenças e a vida? Fala a partir de um tema contando, em uma imersão profunda, sobre a dura realidade do país feito pelas mãos de diferentes e, que hoje, não aceita as diferenças.
Cunhas, Cássias, Silvas, Morais, Vieiras, Abreus, Renatas e tantas outras vozes ganham vez na cena. Quando o espetáculo escolhe um tema, tudo se move na base social.
Vá ao teatro e leve alguém para que a arte não morra pela negligência, sarcasmo ou burocracia daqueles que insistem em negar as diferenças.
Fica a dica:
Espetáculo PRETO – Abertura do 6° Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha; 1 de maio, 20h, no Teatro Municipal de Itajaí.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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