Pequenas Mãos

Certa vez Pablo Picasso disse que levou anos para pintar como Rafael, o pintor renascentista, e a vida toda para pintar como uma criança. Gostaria de começar nossa conversa com essa máxima de um dos grandes pintores do Século XX para falar sobre os olhares das crianças diante do mundo.
Não tenho dúvidas ao dizer que sou de uma geração em que adultos pensavam pelas crianças. Criança não pode isso, não pode aquilo, fala baixo, senta assim, senta assado, come isso, não come aquilo, isso não, isso sim e segue a lista de comportamentos aceitáveis para ganhar o título de “criança educada”. Resultado: levei anos para descobrir meus próprios gostos.
Ainda bem que a cultura é dinâmica e mudamos comportamentos, questionamos certas verdades e refazemos o caminho. Claro que nem tudo são flores. Embora pareça um contrassenso, quanto mais estudada a criança é, mais seus direitos são violados, sejam eles o de brincar, o de ter contato com a natureza, o de dialogar, de criar, de silenciar-se, de ter a companhia de outras crianças, entre tantos outros.
Criança tem agenda semanal fechada. Seus tempos hoje estão tomados por novas demandas e obrigações: escola de inglês, informática, balé, futebol etc. Criança tem coaching que orienta para a vida (e os pais?), criança tem aulas de empreendedorismo (para ter sucesso no mercado). E, consecutivamente, a criança sofre de solidão, ansiedade, depressão, obesidade, com dados sobre a saúde infantil gritando no vermelho de que criança tem que ser criança. Ponto.
Parece um clichê, mas depende dos olhos com que vejo o mundo para que a realidade seja diferente. Aprendo com as crianças. Faço, como adulto, o exercício de ouvi-las para perceber algo além da vida apressada que não encontra tempo para dar atenção às coisas poéticas da vida. Ahh!!! Bata um papo descontraído, faça sessão de cinema, vá ao teatro, leia, corra, jogue, brinque com seus filhos.
A criança é solitária porque é privada de tempo e espaço só para si, em que possam criar, brincar, sujar-se, divertir-se, não fazer nada… sem o controle do adulto. Os espaços de meninos e meninas foram tomados, seus tempos roubados…as cidades foram totalmente modificadas, tendo como parâmetro o mundo adulto que se impacienta com questões infantis.
Eu me irrito facilmente quando vejo os olhos de uma criança diante da pergunta: “o que vai ser quando crescer? ” Ela já é! Ou quando vou em um parque e adultos hipnotizados pela tela do celular respondem evasivamente aos insistentes chamados de suas crianças.
Só é possível ensinar uma criança a amar o mundo, amando-a.

Fica a dica:

Leve uma criança ao 3º Festinfante (Festival de Teatro e Artes Integradas para a Infância), em Itajaí. Começou no domingo e vai até dia 6 de julho. Ofereça a essa criança acesso a variadas formas de ver o mundo.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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Um comentário em “Pequenas Mãos

  • 04/07/2019 em 00:23
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    Mãos de criança
    Olá Sr. André
    Vamos conversar um pouco sobre a coluna “Mãos de Criança”?

    Penso que também podemos ver com outros olhos. Criança hoje já não pode ser mais criança por todas as razões mencionadas, mas também porque tem seu tempo de brincar ocupado com o trabalho infantil velado pelo adulto.
    Controle de adultos? Quando? Já que o adulto sai para trabalhar e não tem tempo de amar esta criança, ocupar-se com ela ou até mesmo olhar-se. Restam muitas vezes as ruas ou alguma política pública assistencialista do Estado que acolhe (recolhe) esta criança para guardar por algumas horas como um objeto incômodo.
    É solitária sim, mas só porque é privada de um espaço no coração de alguém ou para brincar, também porque conviver com os seus que são prá lá de problemáticos, não é nada fácil.
    É nesta criança que pousei meu olhar e é essa criança que talvez no futuro, suas lembranças sejam tão duras que seria melhor esquecer ou quem sabe se tiver oportunidade tentar fazer diferente. Vai saber…

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