Home Colunistas Coluna Esquinas Ou aqui ou acolá

Ou aqui ou acolá

Dizem em conversas do dia-a-dia que a sociedade está ficando chata quando exige que o politicamente correto seja constante em nossas relações sociais. Mas chato mesmo (e perigoso) é ouvir comentários de pessoas que dizem resguardar a moral e bons costumes em nome de uma “família brasileira”. Alô Século XXI, quando chegarás?
Aquele clichê de família constituída com direito à comerciais perfeitos iluminados por uma aura saudável (mesmo que venda margarina) já é passado. Minha família é formada por filhos que têm outros núcleos familiares. Fui pai e mãe de um dos filhos e nem por isso deixamos de ser família. Onde há amor e cuidado, há vida.
Temos a tendência a considerar que o que já é conhecido é bom. Consecutivamente o que nos é estranho passa a ser errado. Nosso relativo conhecimento histórico permite que vejamos poucas gerações atrás e pouquíssimas gerações que nos sucedem. Em outras palavras: nossa percepção do mundo é um grão de areia diante de tamanha diversidade no tempo e no espaço. Somos mais de 7 bilhões, cara. Só o teu ponto de vista é o certo? Ahhh, que preguiça. Siga e me deixe seguir.
Para termos um breve diálogo sobre esse tema relembro que foi a partir do século XVI – com os quadros que representavam a sagrada família cristã – que teve início a família conjugal que conhecemos hoje, os pais e seus filhos. Nós, nossos pais e também avós nascemos dentro desse contexto. Portanto a sensação muito subjetiva que temos é que o mundo sempre foi assim e é inevitável que siga assim. Cultura é dinâmica, ainda bem.
A família contemporânea é horizontal e está formada por redes. Se ouvirmos meia dúzia de crianças na escola descobrimos que são filhos de um relacionamento, mas convivem com filhos de outros relacionamentos do pai ou da mãe que passam a chamar de irmãos. Há também crianças que vivem só com a mãe, só com o pai, ou só com os avós, ou tios. Família, mono, bi, poli ou pluriparental.
Na semana que passou assisti a um espetáculo (indicado ao final do texto) e esse assunto voltou à memória com a vivacidade. No trabalho conheci uma família “tradicional” formada por pai, mãe e filha com lugar estabelecido para homens e mulheres. Autoridade do macho e submissão feminina. O humor da peça chama atenção para o formato de família que condena atos da mulher e aceita como verdade a opinião do homem. Nós, o público, rimos desse quadro absurdo e amedrontador.
Gerei uma família em que a diversidade está todo o dia presente. Assim acredito.
Somos singulares e os vínculos que criamos também o são. Afirmo as diferenças sabendo que com delas faremos a vida continuar pulsando. Família continua a ser desejada como lugar de pertencimento, de acolhimento, de afeto.

Fica a dica:

Espetáculo: “O Amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas” – Direção: Jorge De Paula. Trupe Ensaia Aqui e Acolá (Recife-PE)
Dias 12, 13 e 14 de junho às 20h – Gratuito – Teatro Bruno Nitz em BC

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com