Onipotência

A humanidade consome 15 milhões de hambúrgueres por dia na maior rede fast food do mundo, bebe 32 milhões de garrafas do refrigerante mais vendido no mundo por hora enquanto três produtoras de automóveis têm renda maior do que a economia de 80 países e, segundo a ONU, apenas 358 pessoas do planeta possuem juntas uma renda superior à metade da população mundial.
A onipotência capitalista atinge a tudo e todos. Claro que não pretendo atacar a globalização. É discurso sem ouvidos. É texto sem leitores. Parece que há um consenso em acreditar que o mundo global é mais vantajoso do que vivermos com a simplicidade do lugar em que moramos. Quem ficaria sem seu celular via satélite ou múltiplos canais de TV? Ou como viveríamos sem aqueles shoppings iguais em qualquer canto do mundo? Como faríamos sem os seriados norte-americanos que divulgam a vida perfeita dos jovens bonitos e saudáveis que lá vivem? Qual seria o futuro da moda sem as cópias bregas de roupas vestidas por famosos? Ou como teríamos acesso aos bens de consumo que estão disponíveis para japoneses, norte-americanos ou europeus?
Tudo tem seu preço! Tudo acessível na “liberdade” do capitalismo. Meio ambiente? Lixo? Dependência de cartões de crédito, cheques especiais ou boletos bancários? Quem se preocupa com isso? Vivemos a ilusória satisfação de Narciso que, de tanto admirar sua beleza, morreu afogado no espelho das águas.
Consumo! Portanto, existo. A onipotência do consumo atinge hábitos cotidianos, invade casas, promove um pensamento equivocado sobre tudo. Tudo está aí para seu usado. A que custo? Disso falemos pouco ou façamos de conta que, ao fazermos o consumo consciente, estamos absolvidos do lixo que produzimos, dos gastos desnecessários ou das safadezas capitalistas que alimentamos.
Se há problemas ambientais, fome ou degradação humana no planeta, a culpa é nossa – os consumistas compulsivos. Veja o aumento da carne em 40%. Suspeito que é um discurso para convencer o consumidor de que a Amazônia tem que virar pasto para criar gado. Falta espaço para carros? Ao invés de melhorar transportes públicos, criamos estradas maiores.
Diria o bom piadista que o diabo, quando começou a comprar almas, inventou a sociedade de consumo.
Nossa tarefa é (aparentemente) simples: rever hábitos e preocupar-se com a vida no planeta.

Fica a dica:

O documentário The True Cost (Direção: Andrew Morgan. Ano 2015) é uma história sobre as roupas que vestimos, as pessoas que as fazem e o impacto que a indústria tem em nosso mundo. O preço do vestuário tem diminuído ao longo das décadas, enquanto os custos humanos e ambientais têm crescido dramaticamente. É um documentário inovador que abre as cortinas sobre a história não contada e nos convida a pensar: quem realmente paga o preço por nossa roupa?

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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