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Notas sobre a falência da realidade

A humanidade desaparecerá: Bem feito!
A camada de ozônio está fazendo falta e o aquecimento global já é sentido. Desmatamos em proporções inimagináveis. Não sabemos o que fazer com o lixo que produzimos. Transformamos a realidade usando tecnologias que deveriam aproximar e não afastar. Enquanto isso, tomamos água em copos plásticos, não separamos o lixo ou jogamos a culpa em outro.
Enquanto alguns consomem em média 700 litros de água/dia outros povos do planeta consomem menos de 30 litros/pessoa. Água? 1/5 do planeta não tem acesso à agua potável. Mas tomamos cerveja que – da fase de plantio da matéria-prima até o seu copo – costume em média 155 litros de água para cada litro que bebemos.
Enquanto lutamos contra escravidão, trabalho infantil ou prostituição de crianças outros distribuem cartões de crédito na porta se suas casas. Muitos procuram alimentos para a vida manter-se, outros sofrem de obesidade mórbida.
Sou pessimista? Talvez.
Confio em coisas que estão um tanto fora de moda. De todos os fluxos da vida, guardo cores, cheiros e afagos. Conheço cada quintal ou laranja colhida no pé. Sou adepto de memórias lentas muito mais do que movimentos. Adoro lentidões que permitem meu demorar-se nas coisas sem um relógio mandando no ato.
Quero a vida e não a ficção.
Ficção? Sim a realidade nos é criada cotidianamente com novelas, reality shows ou publicidade. A realidade nos mostra a virtualidade de um corpo perfeito e provoca desejos de posse. Provoca a vaidade quando o humano se convenceu de que um carro é mais importante do que pedestres. Ouvimos, sentimos e vemos dia após dia a realidade do planeta impedir a qualidade de vida mínima – leia-se água, alimento, moradia, paz – e os comerciais prometem a felicidade se comprarmos a nova versão do celular.
Estamos imersos na cultura da vaidade: mostrar-se aos outros (sou o que mostro em redes sociais); temos medo se não sermos percebidos (usamos, divulgamos, fotografamos para que outros admirem) e, portanto, queremos o juízo de outros. Lembrando que a origem da palavra vaidade vem de vazio. Muito cheios de esnobismos e arrogâncias, nós – humanos ainda – escondemos o vazio em roupa, consumos, shoppings e prepotências. O espetáculo da realidade é para encher os olhos.
Consumimos para não morrer de doenças contemporâneas. Medos, fobias, remédios, agressividades, dores, abandonos. Consumimos para acreditarmos que a vida está no produto que conquisto.
Quero a vida e não a ficção. E, assim, sou um irrecuperável louco e romântico. Ainda bem.

Fica da dica:
Respire fundo. Se ouça. E siga com essa bela dose de loucura que você tem.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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