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Minha trilha sonora

 Aqueles que dançavam foram tidos como loucos por

aqueles que não conse­guiam ouvir a música.

(Friedrich Nietzsche)

A humanidade reconhe­ceu na música algo além do prazer e fruição estética. Nas últimas décadas do Século XX fomos ouvindo e admi­tindo que uma boa música vai além do prazer e come­moração. A música está em nossas vidas como trilhas sonoras que nos remetem à instantes de nossa trajetória nesse planeta. É lindo pre­senciar essa clareza que, nós humanos, estamos assumin­do.

Temos notícias sobre ci­vilizações em que a músi­ca era uma presença que influenciava em comporta­mentos e na formação ética. Povos da antiguidade reser­vavam lugares de destaque para os músicos. Povos dos Andes consideravam a mú­sica como um trabalho im­portante para a saúde da co­munidade. Retrocedemos, e muito, para voltarmos len­tamente ao começo de tudo. Levamos séculos para com­preender que a música vai além do som e da dinâmica cultural que move.

Já sabemos que a música é próxima de tantas outras áreas. Eu, vou puxar para meu recanto de escritor. Mú­sica e poesia se encontram para falar de alegrias e an­gústias do humano frente ao seu tempo. Letras, sem dúvi­das, são crônicas de seu tem­po.

A poesia dança com gran­des músicos e faz a músi­ca aproximar-se da literatu­ra. Há uma linha tênue entre elas. Quantas vezes – naque­la conversa após um bom vi­nho – ouvimos: Mas Chico Buarque não é músico, ele é um poeta. A palavra dita e a palavra cantada viram con­versa calorosa que pode es­quentar ao sabor do vinho ou dos conceitos que por ali estão rondando os convivas.

O papo pode seguir com uma pitada de história: Dos trovadores medievais que in­ventam a poesia musicada aos repentistas nordestinos ou trovadores dos pampas, o certo é que a música faz com a gente o que a palavra escri­ta passa trabalho em fazer: cria raízes em nossos gostos de modo que cantamos mui­to, mas poucos são os que leem um bom livro de poe­sia.

A oralidade ainda presen­te em nossos cotidianos nos aproxima de indígenas ou africanos (nossos antepassa­dos diretos) e pode nos dar a dimensão da riqueza em sons e palavras que nossa cultura brasileira carrega.

Por isso afirmo mais uma vez que a beleza, a arte, a expressão cultural vai salvar o mundo da mesmice, do caos, do ego.

Minha confiança voa. As­sobio uma melodia mesmo sem saber a letra, ou falo um poema mesmo sem sa­ber cantar.

Arte é um verbo que ali­menta meu futuro.

P.S.: Enquanto escrevo, assobio uma canção. Não desisto.

Fica a dica:

O documentário PALAVRA (EN)CAN­TADA (Direção Hele­na Solberg. 2009) que estreita as margens entre poesia e música

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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