Meus moinhos

Sou um eterno Quixote. Dito assim pode parecer pretensioso achar que tenho o direito de me parecer com o personagem famoso de Cervantes. Mas não o é.
Sou um eterno Quixote porque sempre luto contra moinhos imaginários que juro serem dragões. E muitos deles habitam apenas os meus pensamentos.
Ousei sair à noite depois de algum tempo febril. Quando se está doente, muitas quinquilharias do que pensamos é jogada fora. E não é que, após uma profunda limpeza nos moinhos imaginários de meus pensamentos, eu fui chamado de Quixote com o direito a Don! Uma reverência um tanto exagerada, mas nem por isso posso deixar de agradecer tamanha gentileza.
Fiquei a pensar por algum tempo sobre quantos e quantos moinhos viraram dragões e foram derrubados em minhas (imaginárias) batalhas. Ou quantos permanecem lá, à espreita, desafiando minha paz.
Esse texto é uma tentativa de enfrentá-los. Os moinhos não podem virar dragão, portanto apresso-me em contar a você, que acompanha essa minha desesperada corrida contra meus próprios pensamentos, confiante de que me dê pistas que elucidem essa armadilha em que estou metido.
Vamos a eles:
• A humanidade falhou, mesmo que você duvide. O coronavírus é um exemplo muito atual para pensarmos sobre o assunto. Em pouco tempo as bolsas de valores ficaram nervosas, a produção em algumas fábricas do mundo foi paralisada e (pasmem) imagens de satélites mostram a redução considerável de dióxido de carbono na atmosfera. E ainda sugerem que fiquemos de quarentena. O sistema sugerindo que paremos de produzir? Distopia? Ou um sinal vermelho para que entendamos de uma vez por todas que as catástrofes que atingem o mundo mostrem o quanto estamos cegos? Pessoas e o meio ambiente estão adoecendo. Precisamos de quantas tragédias para entender o recado? Só eu que vejo um dragão aqui?
• Meu gato ouve o que penso e os vizinhos nem sabem que eu existo. Fumam na sacada e jogam lixo em qualquer canto, gritam palavrões para torcer por seu time predileto e ainda usam salto alto em horários impróprios. Vão a reuniões de condomínio defender seus egos e usam o grupo de whatsapp para dizer impropérios ao mesmo vizinho que se diz bom dia com um sorriso falso. E o meu gato continua entendendo o que eu penso. O dragão mora ao lado.
• O capitalismo não é o único modo de existência. Se mudo meus hábitos de acordo com o que quero do mundo confio que ele vai mudando aos poucos. Por que mesmo o mundo inteiro precisa agir como você pensa, para que você comece a mudar? A mudança é interna e meu dragão pode morar em meus hábitos.
Durmo no chão porque ainda tenho medo de que dragões morem embaixo de minha cama. E meu Quixote ronca para espantar alguns monstros que nem são tão imaginários assim.

Fica a dica:
O filme PESCADOR DE ILUSÕES (1991. Direção Terry Gilliam) nos conta que loucura, solidão e depressão são as doenças do século XXI.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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