Meus baús

Diga lá: quem não tem os seus? Os meus cheiram a mofo, tem fundo falso que raramente acesso e também carregam lembranças que preferia deixar no passado. Mas, tenho meus baús com a tranca estragada e, às vezes, ele teima em abrir só. Quando menos espero, lá estão as memórias expostas tocando em meus sentimentos de hoje com uma intimidade que me incomoda.
Dessa vez, o assunto que saiu de lá foi: eu e os outros. Ahhh esse baú insistente que teima em mexer com relações, revira pensamentos e interroga meus sentimentos. Tive que encarar e, como sempre, um choque tomou meus dias, meu corpo e minha energia. Os outros? Diria um pensador que já li muito: “o inferno são os outros”. Eu tomei uma decisão: não são não. São os outros que fazem a minha vida ganhar cores.
Minha velha mãe usa uma frase que me acompanha desde sempre: conselho se fosse bom, se vendia. Levei anos para entender um pouco da sabedoria daquela velha índia, afinal o que serve para minha vida pode não ser bom para a outra pessoa. Só há palavra boa quando faz sentido para o outro ou prefiro o silêncio.
Gosto demais de falar com desconhecidos na fila do mercado, na praça, na rua. Gosto da “loucura” alheia e seus modos de explicar o mundo. Tudo bem que sou escritor e sempre é bom conhecer outros modos de levar a vida, mas principalmente porque aumento meus repertórios de palavras, de sentimentos, de comportamentos. O outro é sempre uma bonita inspiração.
Uma névoa toma as relações. Seu nome? Pré-conceito. Ele impossibilita que vejamos o outro. Quando enfrento os meus preconceitos ganho amigxs e, principalmente, descubro que tenho mais coisas em comum com aquela pessoa do que minha primeira impressão dizia. Só depende do ângulo que olho para ver uma pessoa e não um erro.
Quer mais? Fui um juiz por muito tempo até descobrir que cada situação de vida tem vários lados. A verdade é sempre relativa. E se eu estivesse em situação semelhante? O que faria? Qual escolha faria? O que incomoda é que a outra pessoa teve coragem que às vezes falta em quem julga e acabamos vendo no outro algo que detestamos em nós.
No mais, abrace, conte piada, fale asneiras e ria de si que teus baús não serão habitados por fantasmas.
E, fundamentalmente, se observe e aja. O mundo tem 7,7 bilhões de modos de viver e é impossível que eu seja o único certo né?

Fica a dica:
Sempre gosto de rever o filme A EXCÊNTRICA FAMILIA DE ANTÔNIA (Ano 1995, Direção: Marleen Gorris) que abraça a diferença afirmando-a. Conheça uma família com pessoas excluídas da sociedade formando um grupo excêntrico e divertido.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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