Hiato

Sei que não sou o único. Sei porque ouço muita gente desabafar. Sei porque acompanho noticiários. Sei porque a solidão é o mal do século. Sei porque os índices de suicídios aumentam semana após semana, perto de nós.
Estamos sem lacunas, sem vazios que permitam um respiro, um instante de meditação, um silêncio. Adoecemos por excessos. Adoecemos pela angústia de não estarmos fazendo tudo o que poderia ser feito. Afinal, “se você não venceu, a culpa é sua”. Sucesso, dinheiro, bens e toda essa ladainha fica ali incomodando nossos sentidos e o inferno é não ser “igual’ aos outros.
Olho as redes sociais e sempre tenho a sensação de que o único fracassado e com problemas sou eu. Sabe aquele velho papo de que a grama do vizinho é mais verde? Olhando melhor, percebo que ela pode ser de plástico.
Somos resultado de uma operação algorítmica em combinações matemáticas. Tenho algumas hipóteses e compartilho com vocês:
Sabe aquele papo de empreendedorismo? Começa nos fazendo acreditar que devemos alcançar o “sucesso”, mesmo que para isso se sacrifique a vida. Resultado: de forma completamente voluntária, vamos tomando nosso tempo com consumo, redes sociais e uma profunda angústia, que chega quando achamos que não estamos dando conta.
Nos conectamos. As relações são conexões e, raramente, olho no olho. Não há comunicação e sim troca de informações. Aquele acolhimento das pessoas amigas com sorrisos, ombro que nos ampara, chá quentinho quando estamos tristes ou palavras sempre animadoras são substituídas por likes, compartilhamentos ou breve comentários com emojis sem aromas ou sensações físicas.
Nisso eu caio no pensamento de que o quanto mais parecermos iguais (comentamos o mesmo assunto quando chega nas redes, escolhemos os mesmos filmes, tomamos para nós as lutas que precisam surgir nas redes, desejamos os mesmos produtos e por aí vai…) maior é a tendência de servirmos a um sistema de submissão. Se um, dois ou três de nós deixar de consumir plásticos estamos “prejudicando o sistema de produção”. Andamos meio que zumbis, fazendo coisas sem uma pergunta anterior que pause a ação e permita a observação.
E por fim o tempo. Nosso tempo. Aceleramos nosso dia e sempre acabamos ele com a sensação de que não fizemos tudo o que era preciso. Fazemos tudo (tudo mesmo) muito rápido. Tão rápido que impede um tempo para nós mesmos. Tudo chega rápido e vai embora com a mesma pressa. E o tempo que dedicamos a nós mesmos às vezes está ocupado com telas (nas redes sociais, nos filmes à la carte ou mexendo com canais da net, que falam da vida alheia).
Considerando os 2500 caracteres dessa crônica se você leu até o final, agradeço sua pausa no caos cotidiano.

Fica a dica:

O documentário “Tempo e Aceleração Social: a ressignificação do tempo e seus efeitos na Hipermodernidade” (Brasil/2012). Roteiro e direção: Evie de França Giannini.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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