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Eu, a palavra e um muro

Um dia sonhei em ser escritor. Eu? Uma pessoa resignada com as neuras da vida de professor querendo escrever com palavras doces e passear pela literatura? Escrevia para (re)existir como que um alívio, um desatar de nós, um modo de absorver as incompreensões da vida e criar meus próprios mundos. Um dia percebi que tinha 15 livros escritos e titubeava ao dizer que era escritor.
Escrevo para alimentar o prazer pela vida. E não é autoajuda. Depois de uma depressão profunda (que aqui não cabe elucidar o caso) minhas palavras alimentaram carinhos, alinhavaram palavras gentis e cerziram algumas ausências. Minhas palavras ali escritas, de repente, estavam matando os monstros que ficaram à espreita. As metáforas que dormiam em minha cabeça agora saiam ativando o coração e fazendo com que eu existisse em meus textos.
Escrevo porque duvido. Erro nas escolhas e me perco sobre os sentidos da existência todo o dia. Meu texto me acolhe sem julgamentos. Sou acolhido pelo mundo que crio. Sei bem que isso tudo soa um tanto piegas, mas preciso escrever assim hoje. Tudo o que nega meu sorriso nesses tempos obtusos é silenciado por uma palavra, um verso, uma crônica, um conto.
Se sigo as pistas, entendo se é para me perder em uma história ou se sou salvo por ela. Exatamente aquilo que meu mundo até ali me negou. Acordo na madrugada com ideias que dão vida à água, me fazem falar como pássaro ou estradas que contornam obstáculos e oferecem um paraíso em que ando sem roupas com a pessoa amada sem medo de morais calhordas ou olhos desconfiados.
Também, o texto chega naquela hora da tarde em que o sol se inclina e as sombras ficam maiores. As árvores ficam douradas em um céu que parece pintado por Van Gogh. Sou devorado pelas horas e não dou ouvidos ao tempo matemático. Nada é barulhento e tudo é frágil. Meus pensamentos são efêmeros e pedem que eu registre em cadernos velhos. É como uma bolha de sabão que, de tão fugaz, alça voo e breve, muito breve, pode sumir. O propósito de existência de minhas palavras é existir. Como captar o efêmero?
Tenho hoje algumas certezas sim. Fui professor por décadas e sofri ao ver dia após dia essa profissão ouvir tolices de pais, alunos e de políticos. A escola ficou velha e o mundo segue em frenético movimento.
Tenho algumas certezas mesmo. Que a palavra escrita pede para ser lida em tempos de leitura rara. Minha imensidão preenche o vácuo que chega todo os dias por telas fúteis. As palavras são filhas do silêncio. Ouço meu mundo que acontece em textos.
Minha felicidade é sentir que existo na leitura semanal de cada um que busca nessa ESQUINA um papo, um encontro, um desvio de rota. Claro, sou humano e, como tal, erro muito. Muito mesmo.
Mas insisto em vazar semana após semana um pouco de minhas ansiedades e meu voraz desejo em viver.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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