Home Colunistas Coluna Esquinas Eu, a cidade e a praça

Eu, a cidade e a praça

Fui, por anos, submisso a urgências. Eram relatórios, notas e diários, provas esperavam correção e aquelas reuniões enfadonhas cheirando à ego. Sem falar, é claro, das dezenas de prazos que batiam na porta do meu sossego.
Quando me vi sentado em uma praça no meio da tarde com olhos fechados e ouvindo apenas os sons da cidade com o sol no rosto, veio imediatamente um suspiro e a gostosa sensação de leveza distante daquela antiga pressa. Foi ali que percebi o quanto já absorvia da cidade que moro alguns anos. É bom quando o tempo nos prega boas peças, não é?
E o céu? Ahh! Que céu. Entre o prédio espelhado e copas de árvores vi um enquadramento que trouxe aquela vontade de ligar para um velho amigo fotógrafo que captura as cores desse lugar à beira mar. Seu singular modo de ver é bastante conhecido nas redes sociais e sempre sou surpreendido quando reconheço aquela paisagem que me é familiar com um enquadramento assinado por ele.
Ouvi discretamente a conversa entre o menino e sua vovó no banco ao lado. Ele insistia sobre a presença dela na festa de aniversário que iria acontecer em uma lanchonete de fast food. Na negativa dela, ele indagou os motivos e a resposta veio naquele jeito típico de falar nesse lugar: – Eu como é pirão com peixe e tá bom. De supetão, responde o menino: – Éca! O riso largo da vó anuncia a serenidade diante do conflito.
No outro lado da rua, o pescador apressado em amarrar a bicicleta de um verde envelhecido, sai arrastando chinelos em direção à agência bancária prestes a fechar. Grita alto para o pipoqueiro na esquina que, ocupado em fazer seu marketing pelo cheiro característico do produto, responde com um gesto. Foi aquele papo que só pexêro entende. Fiquei só com a imagem.
Ainda a tempo vejo um casal que troca beijos no banco postado em frente à pequena igreja iluminada. Os vincos do tempo no rosto da velha beata se movem ao ver a cena das carícias em terreno sagrado. O taxista abre um sorriso para aquela cena tão cotidiana. Lá dentro o silêncio fica maior diante do altar de fé.
Um navio rasga a rua em direção ao mar com seu majestoso porte. Na proa, um marinheiro assobia e acena para a moça que carrega uma sacola amarela. Ela fecha o riso diante da ousadia do homem do mar. O que lhe dá o direito de criar esse breve instante de intimidade com ela afinal? A passagem efêmera pelo lugar ou aquele direito que machos pensam ter?
Na tarde fria de julho encontro a cidade pulsando na pequena praça. E o sino bate bem bem bem longe. Gosto de perceber que o tempo nos dá tempo para ver a vida passar diante de nossos sentidos.
Aprendi algo naquela praça: Se quer a cidade viva, comece por ouvir a vida em teu peito.
Um silêncio aqui.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com