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Em terra de cego…

O conhecido provérbio foi registrado pela primeira vez no século XV pelo filósofo holandês Erasmo de Roterdam. Esse – ironicamente – tem como obra mais conhecida pelos ocidentais o Elogio da Loucura.
A obra, publicada em 1509, deu vida à loucura que – com muita sátira – declara ser a “mola oculta da vida”. O autor denuncia a mediocridade, a hipocrisia e a intolerância num mundo regido pelos prazeres do clero católico. A loucura diz: “Quem me descreveria com mais verdade, se ninguém me conhece melhor que eu próprio me conheço?”
Sim, leitores, precisamos de uma boa dose de loucura para dar conta de algumas coisas. Houve um tempo em que a humanidade ocidental achou que loucos e crianças eram um perigo, pois suas línguas eram sinceras e saíam por aí a dizer as verdades incômodas. Para as crianças criaram a escola com seus rituais de espaços e tempos que dariam disciplina aos futuros adultos. Aos loucos ofereceram o hospício para regular entre muros e grades as suas mentes ávidas por conhecimento.
E hoje? Uma farta dose de loucura sempre foi um apoio para eu viver o aqui e agora.
O ditado que dá o nome a esse texto me acompanha já alguns dias. Assumo que sou um observador da vida humana para – com uma boa dose de loucura – concordar com a máxima de que em terra de (c)egos quem vê o outro é rei. Dito e muito bem recriado.
Consuma estritamente o necessário. Louco! Produza menos lixo. Louco! Bom dia, obrigado, licença, por favor. Louco! Sorria quando você fizer contato visual com alguém. Louco! Mantenha a porta aberta para a pessoa atrás de você. Louco! Compre o necessário e, quando o fizer, limpe uma outra roupa velha e as doe a alguém em necessidade. Louco! Passe um tempo com criança. Louco! Cumprimente o mundo com os olhos maravilhados. Louco! Ouça atentamente as histórias das pessoas mais velhas. Louco! Veja o mundo como você deseja que ele seja. Louco!
A revolução é molecular e começa já. Atitudes simples, mudam tudo.
Uma dose generosa de silêncio pode ser uma boa fonte de criação. Haja loucura para não ceder os ouvidos às tolices que ouvimos.
Faço de minha loucura uma linha de fuga. Encaro dia após dia as contradições do mundo para não ser contaminado. Pondero muito ao falar dos outros. Quem sabe assim ajudo o mundo a achar a paz.
Ou posso escolher seguir a vida acreditando que em terra de cego quem tem um olho é caolho mesmo.

Fica a dica:

O premiado curta metragem La Maison en petits cubes (A Casa dos pequenos Cubos) de Kunio Katō. Ano 2008 (disponível gratuitamente na internet).

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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Um comentário em “Em terra de cego…

  • 27/06/2019 em 11:19
    Permalink

    Olá Sr. André
    Não resisti, então vamos lá.
    Aprendi que conhecimento é poder e poder é o que vemos nas mãos de poucos que regem o mundo como se o mundo fosse feito de marionetes. Pensam que sabem.
    Quanto aos loucos e as crianças, ainda são um perigo para muitos, tanto que a escola e o hospício aí estão nos mesmos moldes de muitos séculos passados.
    Os (C)egos não são nocivos quando se vestem de indulgência, caridade, respeito e por aí afora. Aqui entendo (C)ego como o “eu de cada um”.
    Sim, a loucura é um privilégio de poucos que assumem e se assumem com suas “esquisitices”.
    Sim, o silêncio é uma poderosa arma para manter a paz dentro e ao nosso redor.
    Enfim, nem todo cego não vê e nem todo caolho enxerga.
    Vamos seguindo deixando crer que não vemos e quando vemos, nada sabemos, só no silêncio das nossas “esquisitices”.

    Maia

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