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Em doses homeopáticas

Enquanto você lê esse texto estou no quintal da casa de minha mãe absorvendo cheiros familiares e revisitando recantos que, um dia, foram esconderijos para os segredos do filho caçula.
Casa de mãe parece reservar um cenário envolto em memórias afetivas. Acordar ali e sentir o vento frio assobiando lá fora, temperado com os barulhos que anunciam o mate sendo preparado, remete a tempos pretéritos. Nada muda ali, eu mudei.
A casa parece a mesma. Cheiros intactos em móveis desgastados, com fotos amareladas decorando o ambiente, fazem dali um aconchego permanente. Simplicidade é uma lição que levamos quase uma vida para entender.
Casa de mãe tem rituais demarcados pelo tempo que, sagrados como são, precisam repetir-se dia após dia. O mate servido na roda de conversa, a laranja descascada ao sol, o almoço servido pontualmente ao meio-dia, aquele instante para todos sentarem frente ao portão, trocando conversas e olhando para as crianças que brincam na rua ou as fotografias P&B retiradas das gavetas, que colorem os dias chuvosos com saborosos bolinhos de chuva servidos com canela e açúcar.
Só que…quando jovem, virei as costas para esse aconchego e esperei que o mundo me respondesse os tantos porquês que habitavam minha cabeça naqueles tempos. Achava, ingenuamente, que a distância traria as respostas que estavam ali naquele cantinho verde do quintal, plantado pelas mãos firmes de minha mãe.
Como disse certa vez um poeta ranzinza: “Já fui jovem, ainda bem que me curei”.
Tantas voltas, cabeçadas na parede, escolhas tolas com alguns acertos, é claro. Um jovem que esperava o futuro de 2001. Pois é, o “futuro” passou, ele envelheceu e os desafios mudaram. E não é que foi ali, exatamente na casa de mãe, que as respostas chegaram? Sem cerimônias ou enfadonhas citações teóricas. Simplicidade é a maior lição quando ganhamos mais tempo no planeta. Cada vez que vou ao recanto materno volto cheio de respostas e outras tantas perguntas.
Como me fiz historiador? Aos cinco anos meu pai contava histórias de guerras sentado à beira do fogão a lenha tomando o seu mate.
Como descobri que aconchegos não precisam de luxo? Nas manhãs frias em que minha mãe cozinhava ovos de galinha criada no seu quintal.
Como aprendi que surpresas alimentam o peito? Quando, uma vez por semana, o carteiro trazia as cartas de parentes distantes com o perfume e energia das mãos que as escreveram.
Como descobri que a simplicidade é muito mais importante do que teorias? Quando ia para a escola com os livros e cadernos enrolados em sacos de arroz de cinco quilos.
Hoje, nesse aconchego de mãe, descubro que viver a simplicidade faz de mim um pai sem urgências. É, a vida chega em doses homeopáticas

Fica a dica:

A coletânea ‘O tempo e o vento’ de Érico Veríssimo. Dividido em O Continente, O Retrato e O Arquipélago, o romance conta uma parte da história do Brasil vista a partir do Sul.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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Um comentário em “Em doses homeopáticas

  • 17/07/2019 em 12:13
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    Em doses homeopáticas
    É preciso de tantos tempos e (des) encontros para descobrir nossas dúvidas e incertezas ali no pequeno segredo de nossas lembranças pretéritas.
    Segredo porque escondemos de nós mesmos e de quem queira saber, a origem que nos esculpiu. Mas também, é preciso esse percurso ao desconhecido sonhado para realmente saber o que antes achávamos que encontraríamos em outro lugar.
    Passamos grande parte de nossa vida sem enxergar o óbvio e muitas vezes, quando vemos, quando vemos, já é tarde. Não tarde para nos refazermos, mas tarde para retomar o inteiro, não existe a volta inteira, existe a volta diferente com gosto do perdido, às vezes melhor, outras nem tanto.
    Enfim, como diz o cantor: “somos o que podemos ser”.
    Maia

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