Desejos profanos

De quantas promessas é feito o nosso dia? Quero compartilhar, com você leitor, alguns pensamentos que têm povoado meus dias sobre o arquétipo de felicidade.
Felicidade nunca está no presente. Procuramos por ela no que passou: “Naquele tempo que era bom….” ou no futuro: “ Faço hoje para ser feliz amanhã” . No presente nunca. Mas, me parece provável pensar que alguns setores da vida acharam a chave para que seu/meu/nosso presente seja inundado de felicidade com uma condição: comprem!
Bastou eu consultar o verbete “lucro” para descobrir que sua origem etimológica remete à palavras como “ganho”, “vantagem”. E curioso, também originou a palavra “logro” ou “lograr”. Entre vantagens e mentiras, de qual lucro falo? Sim alguém ganha muito com a venda de modelos do que é ser feliz e outros – sempre – perdem.
Olho em volta e a felicidade é oferecida a todos. “More aqui e traga a felicidade para seu lar”, “Beba a felicidade”, “Compre a chave da felicidade”, “Entre para encontrar a felicidade”. Os óculos sociais que me oferecem no comercial de rua prometem os céus.
Em outras palavras, o que consumimos escapou ao controle daquilo que considero humano. O produto transcende àquele que o criou. Sejam produtos materiais, ideológicos ou símbolos de fé. Compramos carro, livros, roupas, sapatos, ideias, modos de ser e sentir ou produtos que oferecem proteção divina. Vaidosos humanos que ostentam posses e profanam seus sentidos. Eu preciso ser melhor do que o outro. Eis a fórmula do sucesso.
Sintomas sim de que a minha cultura anda um tanto doente. E eu já não me sinto muito bem. Sou coagido à ser íntimo de uma roupa que não conheço ou de uma bebida que não gosto. Torno-me (sem o desejar) Voyeur da personalidade famosa oferecendo na intimidade de sua casa um creme que resolve as marcas da idade. Sou um Chaplin preso nas engrenagens da máquina no filme Tempos Modernos. Adoeço por falta de presente. Parece que só vejo o passado com saudosismo e o futuro com ansiedade.
O produto precede a felicidade. A sociedade de consumo mexe com a vaidade sem cerimônias e provoca nossos desejos. E vaidade tem na sua origem etimológica o sentido de vazio. E os desejos? Ahhh desejos! Sempre profanos.

Fica a dica:

O documentário Criança, a alma do negócio. (Direção: Estela Renner. Ano 2008). Sempre atual trata de como a sociedade de consumo e as mídias de massa impactam na formação de crianças e adolescentes.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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