Home Colunistas Coluna Esquinas Dança das Cabeças

Dança das Cabeças

Nas últimas semanas assistimos uma profusão de prêmios e honrarias à cultura brasileira, enquanto o país mergulha em um ostracismo político de amedrontar que desmonta, apressadamente, a cultura nacional. Socorro!
Chico Buarque ganha o principal prêmio da língua portuguesa, o cinema nacional recebe dois prêmios em Cannes. Um dos filmes – Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles – trouxe uma sátira violenta que se passa no sertão pernambucano em um ambiente dividido e armado. Claro, qualquer semelhança é mera coincidência.
E Elza Soares? Em um momento que precisamos argumentar (novamente) contra racismo, homofobia ou machismos entre conhecidos, amigos e familiares, Elza – do alto de seus 88 anos e uma voz de dar arrepios – ganha o título de doutora Honoris Causa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Primeira vez que uma mulher negra cantora de música popular recebe tal honraria. Ela, uma voz que denuncia preconceitos de gênero e cor da pele, merece tal lugar.
Quando construo a ideia de uma crônica fico vendo, lendo, ouvindo o mundo e achando sempre algo que nos serve. Li uma frase do poeta T. S. Eliot que encontrou o tema de hoje em processo. Diz ele: “Não cessaremos nunca de explorar. E o fim de toda a nossa exploração será chegar ao ponto de partida e o lugar reconhecer ainda como da primeira vez que o vimos.” Até quando precisaremos olhar para fora do país, enquanto não chega o dia em que nos reconheceremos em nossa própria cultura?
Cá estamos nós, jogados em uma existência nua e crua de argumentos tolos, antiquados e burros enquanto cabeças dançam, criam, pintam, cantam e escrevem sobre as possibilidades da vida. É preciso suportar com espírito ousado o que nos enreda em mediocridades que beiram a programas de humor no melhor estilo pastelão com piada velhas e de péssimo gosto.
Precisamos encontrar os espaços certos e pessoas certas ao nosso lado para não dar de frente com o muro ou ficarmos à deriva. Procuramos dia após dia um universo cultural para chamar de nosso. Que o encontro seja primeiro em sua aldeia para que depois veja melhor o mundo. Contribua para que sua cidade fique em cores. Depois ouse por outras paragens.
Convido você para a dança. É costume não recusar uma dança, trata-se de falta de educação. Somente com a dança habitamos o universo de quem somos. Venha.

Fica a dica:

O título da crônica é de Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos que passeiam por ritmos populares em diálogo com a complexa elaboração da música clássica.
Para hoje deixo como dica: abram os ouvidos e dancem com o disco Dança das Cabeças (1977) ECM Records.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com