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Com olhos de criança

Acordei hoje com aquela sensação de que preciso sair, ver o sol, caminhar e deixar um vento embalar as ideias. Mas cá estou em casa respeitando isolamento e trabalhando muitooooo.

A casa, além de casa, é escola, escritório e um filho pequenino pede crianças pois está cansado de adultos. Pede crianças?! A frase dura que é seguida de um longo abraço e palavras faladas com dengos e um sorriso tristonho.

Criança, como qualquer humano, precisa do outro para aprender conceitos novos. A interação e relacionamentos que dão afeto e estabelecem vínculos é que ensinam algo novo.  Esse processo de interação é muito mais rico quando envolve grupos, pessoas, culturas diferentes. Esse é um dos melhores estímulos educacionais que a criança recebe.

Essa máxima vale também para o contato com a natureza e a experimentação de novas texturas, sabores e sons.

Dispositivos eletrônicos – tão em uso com o isolamento social – tais como computadores, tablets, games, smartphones atraem com seus estímulos visuais e rítmicos, mas não trazem os mesmos benefícios para o desenvolvimento infantil do que o olho no olho, o riso em parceria, a brincadeira no parque, a corrida na grama, o jogo na praia. Uma brincadeira não exige brinquedos eletrônicos. Uma história divertida ou uma caixa de papelão permitem que novos mundos surjam e a interação acontece.

O contato humano nos torna melhores. Contato com tato sempre.

E numa bela manhã, o filho pede por crianças que brinquem com ele? Ao mesmo tempo que dá uma sensação de pertencimento a uma cultura também remete à limites que independem de nossas ações como pais.

Naquele dia em que ouvi esse comentário do filhote, fui ao mercado próximo e voltei com duas caixas de papelão. Sem comentar nada, fui pegando tesouras e fiz duas casas com janelas, passagens secretas, escadas e uma ponte que ligava as duas casas. E lá passou o menino entre quinquilharias, tampas e potes que interagiam e viviam aventuras infinitas por algumas semanas. Agora preciso de uma caixa maior, pois a nova aventura exige. Alguém tem uma?

Como estão as crianças nisso tudo? Senti vontade de ouvir elas. Saber de suas angústias que não estão nas redes sociais. Conhecer seus medos e deixar suas falas registradas em algum lugar. Porque olhos de criança tem outras dimensões, outros medos, outros assuntos, outros lugares que, nem sempre, adultos tem acesso.

Encerro hoje com uma frase retirada do livro indicado abaixo. O autor, médico pediatra, colecionou frases geniais de crianças. Deixo vocês com essa:

O que é ALEGRIA: “É um palhacinho no coração da gente.”  E que essa alegria, que sobra em crianças, transborde nos dias que seguem.

Fica a dica:

O Dicionário de Humor Infantil  de Pedro Bloch. Editora Ediouro. Ano 1997.

 
André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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