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Colecionador de Quintais

Para crianças e professoras do CEI Rosete Palmeira Silva, colecionadoras de pequenas alegrias
Na minha rua vi carros, asfalto e muito movimento. É a mesma rua que, de pacata, resta apenas o silêncio contemplativo do céu azul em minha cidade.
O quintal me parece menor do que eu lembrava. A casa parece menor do que aquela em que eu corria quando pequeno. Mas meus olhos são mais serenos hoje e percebem com carinho que as mudanças nos recantos de infância provocaram também mudanças de hábitos e das prioridades entre as famílias.
Na segunda metade do século 20 presenciamos o fechamento das crianças em suas casas por diversos fatores que bem sabemos: chegada massiva da televisão, o surgimento dos jogos eletrônicos, a violência urbana ou o excessivo medo dela, e o fato de as casas perderam seus pátios para concreto ou prédios. O fato é que a infância perdeu o espaço público da rua. Eu ainda fui uma criança que fez do quintal seu espaço de criação.
Fotografei meu filho pequeno solto no quintal da casa de vó com terra, grama e brinquedos improvisados com baldes, pás e pedaços de tábuas amarradas com algumas cordas. Registrei em imagens por ser tão singular o instante que não me permitiria que ficasse apenas na memória. Congelei em uma fotografia que merece sair do mundo digital para um retrato das antigas, impresso em papel.
Muitas das pequenas alegrias que gosto foram cultivadas naquele mesmo quintal. Comer laranja e tangerina com os pés descalços na grama, conversas em uma roda de chimarrão, construir ideias iluminadas ao contemplar o céu limpo e as plantas com cheiro de terra molhada, ouvir histórias dos mais velhos e visualizar lugares estranhos com personagens intrigantes ou simplesmente mexer na terra em que, em 1911, meu avô plantou a parreira que dá frutos até hoje. Hoje são hábitos que fazem de mim um colecionador de quintais cheios de memórias, cheiros e narrativas ricas em detalhes.
Um colecionador que fica bobo assistindo a folha amarela cair do galho ao final da tarde ou que procura desenhos nas nuvens de outono. Um colecionador que fica alguns momentos olhando os caminhos das formigas tentando achar uma lógica na escolha do traçado. Aquele colecionador que fecha os olhos ao ouvir um pássaro pequeno cantando na árvore próxima. Sou um colecionador de imagens que só uma infância no quintal ensina sobre sensibilidade para as pequenas alegrias que a vida apresenta.
Que o universo me permita viver em uma casa com um quintal onde o encantamento das coisas continue alimentando os olhos de meus filhos e netos com o brilho de que o mundo tanto carece. Meu quintal habita o peito e é bem maior do que o mundo tão controverso.

Fica a dica:
Filme: Filhos do Paraíso (Majid Majidi, Irã, 1998) indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Como a singela relação entre irmãos, apesar das adversidades sociais, provoca que olhemos para a vida com menores tensões.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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Um comentário em “Colecionador de Quintais

  • 24/07/2019 em 11:54
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    Para crianças e professoras…

    As memórias às vezes encantam
    Quem ouve ou quem as diz
    Podem ser às vezes breves
    Mas sempre nos faz feliz

    Sei muito bem o que dizes
    Também assim eu vivi
    Ainda busco bem fundo
    Reviver esse porvir

    Talvez nas novas crianças
    Que podem sim assim viver
    Mesmo que o mundo de hoje
    Queira matar cada ser

    Somos nós os responsáveis
    Pra essa criança trazer
    Ao mundo que antes vivemos
    E nova alegria de viver

    Não há de ser o concreto
    O asfalto a televisão
    Temos memória latente
    Pra viver outra situação

    Poderia escrever
    Mil palavras de esperança
    Mas fico aqui nesta hora
    Só vivendo as lembranças.

    Maia

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