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Chuva extemporânea

Para Baby Nobre, uma erudita aos 92 anos
Algumas palavras geram em nós um certo estranhamento quando chegam aos ouvidos. Não um estranhamento negativo e sim um tempero nesses tempos em que as mesmas palavras ficam desgastadas pelo seu excessivo uso. Ouço, acolho o que me causa cócegas no cérebro. Sou curioso demais com os modos que humanos organizam suas vidas.
Naquele domingo, no exato instante em que a música tomava o quintal com um concerto de piano com Luiz Gustavo Zago, chegou uma chuva inesperada atrapalhando a fruição estética dos convivas que conversavam, já animados com o encontro. Ouvi uma frase que chegou sonora aos ouvidos curiosos: “Que chuva extemporânea”.
Feliz, fiquei sem ação diante da reação de uma senhora tão à frente de seu tempo. Sim, mesmo usando palavra de um português arcaico, é profundamente avançada quando vive alegremente em seu mundo enfrentando o clichê e a mesmice da entristecedora mídia, que nivela as conversas em larga escala.
Jargões de novelas ou comerciais, palavras que nos conectam com um tempo (“isso é tão contemporâneo”) ou hábitos de fala e escrita tão redundantes parecem nos convidar para o sentido de pertencimento em grupos, tribos ou em um tempo. Eu – que nem televisão tenho – sou encantado com outros modos de expressão que não o senso comum.
Paro ao ouvir sotaques, gosto dos modos que o vendedor da rua chama novos clientes, demoro em conversas de rua e fico feliz quando ouço uma palavra estranha vinda de uma região distante. Nesse caso que descrevo acima, deriva de um outro tempo.
Reconheço a dinâmica da cultura e, sobretudo, da língua que muda tão lentamente que é quase imperceptível. Como mecanismo adaptativo e cumulativo, a cultura sofre mudanças. Traços se perdem, outros se adicionam, em velocidades distintas nas diferentes sociedades em direção ao desconhecido: o futuro. E cá estou escrevendo sobre a língua de um tempo passado.
Pois bem. A chuva que chegou naquela manhã de domingo foi mesmo extemporânea. Causou transtornos aos instantes de Astor Piazolla com Oblivion, provocando a ousadia daquela senhora elegante com a linguagem e diante vida. Com a beleza do instante poderia ter sido uma chuva serôdia (tardia).
E você que lê esse texto sentiu-se provocado ou provocada em fazer uma busca ligeira no português arcaico, dê uma olhada na expressão “diz o roto ao nu” para sentir que só é ousado quem vive o seu tempo experimentando-o, sem julgamentos morais.
Antes de ser contemporâneo, precisei ouvir o tempo pretérito.

Fica a dica:

Filme: Desmundo (Ano 2003. Direção Alain Fresnot), todo falado em português arcaico. Aceite o desafio de olhar um filme brasileiro com legendas.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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