Chá e silêncio

¨Uma xícara de chá resolve.” Essa era a máxima de minha mãe quando alguma coisa grave acontecia. Dores da vida, susto, notícias ruins ou até um ímpeto de raiva. Chá resolve. E resolvia mesmo. Nos fazia pensar, respirar e seguir adiante com pensamentos tranquilos.
Claro que isso foi em outros tempos quando o quintal tinha ervas e não concreto. Quando o chá era colhido no terreno e não em cápsulas. Quando a mãe podia observar a tudo com a calma e sabedoria que só o tempo lhe oferecia. Anos depois, inclusive, descobri que morava com uma meteorologista: “Leva casaco guri, vai esfriar!” Nunca ouvia esse conselho e… esfriava. Como pode?
Eu sou do tipo que demora para ouvir conselhos. Birrento, teimoso e cheio de orgulho, perdi tempo demais na vida escolhendo caminhos tolos enquanto ouvia de minha mãe: “Quando vem com o milho, eu já volto com a pipoca.” Que raiva sentia com a minha impotência sabendo que ela estava certa. E disso tirei a primeira lição da vida: só dê ouvidos às pessoas que te amam.
Vida vai, vida vem e me peguei num dia desses em uma situação de saúde em família dizendo: Vamos fazer um chá? E ouvi a voz de minha velha mãe sussurrando: “Viu? Eu falei.” Como pode?
Somos a soma de tempos e (quase) sempre repetimos o que aprendemos quando crianças. Passamos a vida inteira para ouvir os conselhos sábios que nem sempre damos ouvidos. A solução talvez seja voltar ao começo e ouvir a criança que ainda pulsa em nosso peito.
Como? Desaprender é doloroso, mas é libertador. Ouvir conselhos de quem te ama, aceitar um colo, tomar um chá quando a coisa fica difícil, sentar silenciosamente depois de ter escolhido um caminho errado e pensar. Lembra dessa máxima de mãe: “Fica um pouco aí para pensar no que você fez”. São remédios eficientes para seguirmos a vida com suavidade.
Lembra daquela lição repetida inúmeras vezes: somos razão e emoção. Pois é, a razão está em alta e lá se vão séculos. A razão – essa velha senhora que nasceu com a modernidade – bateu em nossas portas pedindo sucesso, dinheiro, bens materiais, agendas lotadas deixando quase nenhum tempo para que nossos sentidos falem.
Por que esse texto hoje? Constatei que adoeci por não ouvir os sentimentos. Passei anos negando o chá de minha mãe porque o tempo não permitia sorver o líquido quente temperado com conselhos sábios. Sempre tinha uma urgência que era maior do que a palavra sábia de uma anciã. Tic tac tic tac insistia em ditar meu dia.
As pessoas mais bonitas são as que sorriem com serenidade. São elas, sem dúvida, que aceitaram o chá quente para aliviar o peito.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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