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Carta em um dia frio

Para D. Geni, senhora das narrativas na beira do rio.

Que o vento frio lá fora não me escute, mas sinto uma saudade do teu fogão à lenha com água quente na chaleira escura ao lado da caneca de louça e um ovo cozido esperando o menino sair das cobertas…
Que as luzes no final de dia gelado em julho cubram meus sonhos com tuas mãos enrugadas e quentes servindo o feijão e arroz no prato com flores desenhadas no fundo. Sem esquecer, é claro, da farinha colocada em punhadinhos na lateral esquerda.
Quando o sol intenso do meio dia chega, traz as memórias das tangerinas descascadas sobre a grama fria elevando ao olfato seu cheiro forte que ficava nas roupas, cabelos e mãos. Você, lentamente, pegava o sabão em pedra e escovava nossas unhas para chegarmos limpos na escola.
Sempre lembro das manhãs frias em que, uma vez ao ano, saíamos ao campo para colher macela em um ritual coletivo de fé. Você levava a bolsa feita com um velho pano de prato branquinho cheia de bolo, pão caseiro com doce de abóbora e bananas.
O vento frio que vinha do sul assobiando nos fios e arrepiando cabelos, anunciava em teus ouvidos de mãe que precisava tricotar mais uma toca, um cachecol ou uma blusa colorida feita de restos de linhas que sobravam de outras roupas.
Frio lá fora na noite longa de julho. Você dormia muito tarde preparando roupas na velha máquina de costuras. Na manhã seguinte era a primeira a acordar com vitalidade invejável. Já com o ferro de passar em brasa, deixava lisinha a roupa a ser entregue como encomenda da cliente chique do centro da cidade.
Não se amedrontava com a água congelante do rio e ajoelhava nas pedras para lavar as roupas da família com pedra de anil. Alvo ficava o tecido. Tortos pela artrite ficavam teus dedos e joelhos grossos com a dureza da pedra ribeirinha.
Relembro que nas tardes cuidavas do jardim e remexias plantas na horta. Colhias limão e laranja para o suco servido com o bolo de milho preparado no forno de barro.
Velha e forte índia charrua que alimentou os seus com a força dos braços sentindo agruras do tempo nos cabelos grisalhos e vincos na pele. Velha e forte mulher que embalou os seus com a sabedoria de ervas, culinária bem elaborada e cultivo do alimento na terra negra.
Velha índia que não teve escola que a recebesse, mas teve a vida como lição. A natureza do tempo te fez forte e alegre. Velha índia adormeço em seu colo que já afagou tantos. Hoje acolhes descendentes. Mulher, em ti está a humanidade.
Hoje repousa a tua memória no terreno do esquecimento. Tão bonito te ver, rindo de tudo como se fosse a primeira vez…
Sou grato. Tu não deixaste que a vida capturasse meu sorriso.

Fica a dica:

Documentário O FIM E O PRINCÍPIO de Eduardo Coutinho. Ano 2006. Narrativas em uma comunidade no interior do Brasil composta, em sua maioria, por idosos.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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Um comentário em “Carta em um dia frio

  • 11/07/2019 em 09:30
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    Bom dia!
    Lindas palavras escritas pelo coração!
    A vida nos amedronta
    quando vemos o que há
    voltamos ao passado
    com memórias de saudades
    pra nunca esquecer o lugar
    do qual fomos sementes
    germinadas num lugar
    que apesar de parecerem sofridas
    foi lá que nos tornamos gente.

    Maia

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