Caleidoscópio

A praia cheia de conversa, roupas coloridas, caixas de som disputando espaço nos ouvidos alheios e bocas roendo salgadinhos com embalagens coloridas regados com bebidas feitas de xarope e muito açúcar. O navio que chega carregado de produtos made in china. Ao fundo, consigo ler o outdoor oferecendo a felicidade em fatias. E um menino que ali na praia brinca, sim brinca entretido com galho, folhas, algumas conchas e um buraco no chão que vira castelo.
Fui pego por pensamentos em meu instante de observador. Como caímos nessa inversão proposta pelo marketing? O mercado cria produtos e nos convence de que eles são necessários à nossa existência: Felicidade é entrar em um vestido P; Felicidade é ter o corpo certo para o verão; A felicidade mora aqui; Felicidade ao alcance da mão; Seja feliz e ganhe o mundo.
O que é essa estranha inversão que coloca o produto à frente da vida humana? Não, o prazer de compra não é o bem supremo da humanidade. A felicidade é “fabricada” pelo ato de compra. Essa possível verdade transforma-se ligeiramente em óculos sociais e a tal felicidade vira produto cultural consumado e pronto para ser comprado.
Mercado e cultura nunca estiveram tão imbricados quanto nesses tempos que colocam o consumo como o único sentido de nossa existência. A felicidade – nas quatro últimas décadas do Século XX – passou a ser mensurada, catalogada, estudada pela psicologia comportamental e artificializada, de forma que se possa induzir ou persuadir a nós humanos de que só há um modo de existência. Leia-se sociedade de consumo.
Aquela memória de longo prazo que nos dá a sensação de pertencimento à cultura vai sendo diluída. As práticas alimentares que nossos avós tinham com o alimento orgânico vão perdendo para mais de duzentos agrotóxicos liberados. Brincar na rua não é permitido pois ela é insegura. Pausar alguns instantes do dia? Impossível quando prazos e tarefas precisam ser feitas para ontem. O que permanecia como nosso, hoje habita o império do efêmero.
As memórias de curto prazo estão em alta. Ouço a música do momento, brinco com botões e telas, em minhas pausas ligo outra tela e acesso ao filme oferecido à la carte, minha comida é mix de ingredientes desconhecidos que levou poucos dias para ser produzida em fábricas, uso o touch passando olhos em múltiplas informações que não guardo.
Sou pai de quatro meninos curiosos. Convencido estou de que para criarmos um humano feliz precisamos ir além do ato de compra daquele brinquedo que trará a felicidade instantânea.
O consumo não é felicidade e sim uma máscara com sorriso fake.

Fica a dica:

O documentário Criança: a alma do negócio de Estela Renner. Ano 2008

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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