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Atravessando a cidade

Uma cidade existe pelas lembranças que temos dela. Atravessamos a materialidade de suas ruas, prédios, praças e monumentos. Assim que damos significado a ela. Mas, como a cidade dá significado aos que nela habitam?
Como nos fazemos sujeitos na cidade? Como a cidade nos educa? Nossos encontros e caminhos, pessoas que falamos, conversas e desencontros fazem com que sintamos a cidade que é invisível aos olhos, mas é exatamente essa cidade que educa e produz novas relações sociais.
Quando saímos do mundo privado de nossas casas e tomamos o espaço público da cidade temos a nossa disposição uma multiplicidade de escolhas que podem fazer sucumbir algumas escolhas pessoais e imprimir outros sentidos ao que fazemos ou deixamos de fazer em nossa relação com os outros que também transitam pela cidade. Esse é o movimento que dá significado e existência para os sujeitos da cidade. São esses encontros que educam.
Na cidade existem aqueles que moram, os proprietários, aquele que passa, outro que não tem lugar. Todos reunidos em diferentes condições concentrados no espaço da cidade. Penso aqui em nossa cidade e as maneiras que nossos jovens e crianças estão sendo educadas nela. Afinal, qual mãe ou pai não se preocupa ou dá infinitos conselhos ao filho que se aventura no movimento cotidiano de uma cidade?
É na rua da cidade que nossos filhos têm acesso ao que negamos muitas vezes em nossas casas. É no movimento cotidiano das ruas que nossos valores sociais são colocados à prova. A rua é um espaço onde o mundo pode ser lido ou interpretado. O anonimato e a insegurança permitem que circule o que (des) educa.
O fato é que no frenesi da cidade, o que é ensinado em casa se mistura com o que a cidade oferece. Violência ou consumo, sexo ou drogas, consumo e fast food, estímulos nem sempre saudáveis. A cidade educa e não podemos esquecer que somos nós que fazemos ela existir. Dou um exemplo para ficar mais claro: onde você joga o lixo em sua casa? E na rua?
Casa e rua. Espaço que se complementam e educam. Se no espaço privado de sua casa você educa seu filho para o respeito ao outro, faça o mesmo nas ruas de sua cidade quer seja no trânsito ou na fila do mercado. Esteja atento com o bem estar dos outros como desejaria que seus filhos fossem tratados nas ruas de sua cidade. A cidade é você.

Fica a dica:
Com o filme argentino Medianeras (2011.Dir. Gustavo Taretto). A cidade caótica, imprevisível, mas ao mesmo tempo atrativa. A solidão humana, como se convive diariamente com perfeitos desconhecidos, que, por sua vez, são indiferentes entre si. A falta de comunicação, a tecnologia pensada para nos conectar a que paradoxalmente nos separa. A busca pelo amor, a dificuldade de duas pessoas, que se encaixam perfeitamente e que inclusive vivem na mesma quadra, sem se encontrarem.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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