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Ângulo insólito

Ahh! A criação.
A arte viaja até o caos para retirar alguma coisa dele. Estamos debaixo do chuveiro, caminhando distraídos, escutando uma música, olhando para o teto e bingo: lá vem uma ideia em nossa mente e não nos larga mais. Instalado o caos que luta com nossos afazeres cotidianos.
As ideias surgem de informações que estão à disposição de todo mundo, o tempo todo. O modo que cada pessoa trata essa ideia dentro de si é que faz uma diferença na sua execução. Cada pessoa percorre um determinado caminho que chamamos de processo criativo. É um pequeno pedaço na eternidade que está em cada obra de arte, em toda a criação singular.
Os teóricos apontam algumas etapas dessa ideia dentro da gente. Essas etapas não têm linhas rígidas que as separam. Muitas vezes elas se sobrepõem uma a outra. Vão do insight, passando pela produção até o resultado final. É um processo que dá ressonância aos mundos que temos aqui dentro. Cada artista recorta do mundo uma possibilidade por meio de sua obra.
Uma tela em branco assusta qualquer um. O pintor é intimidado diante do branco não porque o teme, mas porque vê ali uma infinidade de possíveis traços. E quando o artista consegue carregar o caos para a sua singular criação? Cada pincelada, recorta o caos ao redor, lhe dá um contorno, uma forma, um caminho. O artista extrai afetos do universo de possibilidades ao seu redor e, com sua arte, cria um finito que restitui o infinito e nos colocando, como espectadores, no centro dele.
Dá muito trabalho ser espontâneo. A arte exige um árduo trabalho de pesquisa, observação, estudo. Artista rala, e muito.
Uma obra de arte pode nascer de uma criação coletiva? Sim. Algumas expressões da arte são coletivas em sua essência tais como o teatro ou cinema. Em outras, a criação coletiva pode parecer inviável, mas não impossível. Estou falando de literatura ou artes plásticas, mesmo que em ambas já tenha visto experiências lindas com o envolvimento de um grupo.
Quando uma obra de arte é capaz de manter-se em pé sozinha, andar com suas próprias pernas, ela não é mais daquele que a criou, pertence ao mundo. E quando o processo coletivo é mais importante do que o produto final? Ahhhh! Aqui posso afirmar que os conceitos são compartilhados com muitos e ele, o artista, é generoso com toda pessoa que ousa dividir esse momento de criação.
Esse é o momento histórico em que o tripé artista – obra – espectador encontram o seu lugar social. E, por mais paradoxal que pareça, é um convite para deixarmos de ser nós mesmos, mesmo que por um instante.
Chegamos assim, a um ângulo insólito. Fez-se arte em mundos possíveis habitados por novas sensações.

Fica a dica:

Visite a exposição SARDAS E SARDINHAS, do Coletivo ComoVer – Curadoria de Luiz

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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