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Aldeia das águas

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.
L. Tolstói
Sou de uma pequenina cidade na periferia do Brasil. Saí cedo daquele recanto quando entendi que eu não pertencia às ruas, casas e costumes daquela pequenina cidade com suas mesquinharias e estranha mania de falar da vida alheia.
Viver em uma pequena cidade não significa ter uma vida pequena. Essa ideia batia toda manhã nos pensamentos daquele menino que de lá partiu em um trem com bancos de madeira, uma mochila de lona carregada de sonhos e uma liberdade arrebatadora.
Aos poucos, bem aos poucos a vida foi me ensinando que me relaciono com os lugares do mesmo modo com que sinto o mundo. Sentia a pequena cidade invadindo minhas escolhas e isso me deixava irritado. Na verdade, eu nem sabia bem o que queria. Então, como minhas escolhas poderiam ser invadidas?
A vida correu ligeira e, em longos intervalos, voltei às ruas da pequenina cidade. A cada experiência fui ressignificando os espaços, hábitos, arquitetura e até os cheiros daquele lugar, até então, distante em mim.
Ganhei anos e experiências para concordar que a felicidade só é real quando compartilhada. Foi naquela rua de árvores velhas e frondosas dando sombra ao antigo banco que meus olhos foram tomados de belas imagens naquela pequenina cidade. Vi crianças que ainda brincam na rua e a felicidade chegou quando eu, sentado na sombra da velha praça, enfim vi a pequenina cidade como poesia viva, a começar pelas ruas largas que ficam vazias nos domingos cheios de sol. Tantas imagens raras no caos contemporâneo tocando o humano que aqui pulsa.
Hoje vivo em uma cidade que é um lugar de encontros. É um porto e estuário de um grande rio. Às vezes, um avião passa acima dos morros ou o barco cruza meus horizontes e deixa que pessoas de outros recantos tragam boas energias para cá. Cidade das águas, onde o fluxo alimenta o cotidiano em constantes surpresas. Encontrei essa cidade já encantado com suas imagens e sons. Modo peculiar de fala e paisagens de tirar o fôlego.
A minha história é narrativa de um presente. A cidade que mora em meus olhos, não vive de mitos do passado, romantizando sobrenomes que assumem proporções épicas.
Debrucei pequenas memórias sobre a cidade e seus múltiplos ritmos. Ampliei olhares para suas ruas, seus cheiros, suas festas. Agucei ouvidos e captei seus sons cotidianos com a curiosidade típica de quem olha novamente para seus recantos após alguns anos sem ali estar.
Pequenina cidade, que tuas imagens e sons deem vida às minhas palavras.

Fica a dica:

Cd Nós . Daqui . Já . Assim de Rafaelo Góes que poetiza os encontros nessa pequena cidade onde ainda ouço o galo cantar no quintal do vizinho.

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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