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A rua que me atravessa

Para Dona Conceição

Gosto das ruas. Nelas que vejo como é uma cidade. O modo que se alimenta, como dorme, como usa suas vestes, no que crê, naquilo que ouve, fala ou consome. Essa intimidade não seria revelada se ficássemos em carros com ar condicionado. Conhecer a cidade exige que caminhemos por suas ruas e nos misturemos com seu jeito.
A palavra rua vem do latim e significa ruga, sulco. Esse espaço entre moradias que permite que o tempo corra em passos lentos, bêbados, ligeiros e também no sono exausto do mendigo. A rua tem a alma da cidade. É o pulso e vida do lugar. É o lugar onde habita uma multivariedade facial, com gostos, cheiros e comportamentos diversos.
Itajaí completou na última semana 159 anos. Nas suas vielas, ruas e becos pousa o suor no cimento, no tijolo ou nas pedras do calçamento. O esforço dos que a levantaram merece reverências em detrimento de uma cultura que privilegia tudo que vem de fora. Quero ouvir as etnias que aqui aportaram para dar vida às ruas desse lugar. Quero conhecer o trabalhador anônimo que faz desta, uma cidade de encontros.
Qual de nós já passou e ouviu os segredos de cada rua? Qual de nós já sentiu o mistério dos tijolos ou os sonhos e vícios do lugar? Quem sabe os sentimentos de cada bairro desta cidade? A língua dos poetas ou os pincéis de seus artistas? O roteiro vivo de um espetáculo ou a música feita no encontro dos daqui com os que chegam?
Quando festejo aniversário faço uma lista e coloco nela todas as sensações de pertencimento que, naquele momento, me permitem sentir a vida. O que faz essa cidade ser o que é? O que vejo nas ruas? Moro aqui e conheço o homem que veio de longe para vender livros nas ruas, mesmo sem saber ler. Aqui recebo conselhos carregados de emoção daquele que vende moranguinhos no sinal vermelho. Ouvi memórias da senhora negra que fez da praia de Cabeçudas o quintal de alegrias com sua família. Assisto o velho cego tocar acordeon na esquina. Ele não vê a cidade passar, mas ouve sua paisagem sonora.
A cidade constante e anônima faz parte do que sou. Me emociono ao morar em uma cidade à margem do rio. Cidade que beija diariamente as ondas salgadas e tempera sua cultura com um dinâmica própria desse lugar.
Saio de casa e encontro amigos nas esquinas. Encontros que afetam meus sentimentos sobre o dia. Um sorriso, um abraço, uma palavra bonita dá significado ao que virá. Amigos, paixões ou oportunidades de trabalho surgem para me oferecer a sensação de pertencimento nesse lugar. A cidade mora em mim.
Se quisermos manter a cidade viva, comecemos por ouvir vozes daqueles que são anônimos. Se quisermos manter a cultura da cidade inclusiva, comecemos dando voz a todos do lugar.

Fica a dica:

Como entrar de vários modos na mesma cidade?
Indico o livro Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino (1972).

André Soltau
ANDRÉ SOLTAU Historiador na formação com estudos sobre imagem, memória e cultura contemporânea. Com diversos livros publicados, atualmente editor da ideia de outros em uma editora independente. Membro do Conselho Municipal de Cultura em Itajaí representando a Setorial de literatura.
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