Uma obra-prima rejeitada

Diniz é considerado um dos maiores artistas de Itajaí

Na década de 1970 eu e o Calinho Niehues, vizinhos na rua João Bauer, resolvemos frequentar as aulas do artista plástico Dinyz Domingos, que possuía atelier em uma sala no segundo piso do Salão Paroquial da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento. Um dia chuvoso, desses que tem tudo para a gente cabular aula, o Calinho ficou em casa e eu resolvi ir ao compromisso marcado com o mestre. Como estava sozinho, a conversa fluiu por outros caminhos, mais solta, mais dispersa, sem compromissos técnicos ou didáticos. Dinyz tocou violino para a chuva e conversamos sobre nada e tudo por um bom tempo.
No correr da conversa eu perguntei pra ele dos motivos que o levavam a fazer tantos quadros com paisagem contendo flamboyant floridos. A sua resposta foi surpreendente. Mudo, tirou uma tela incompleta que estava posta no cavalete ao seu lado, colocou uma nova tela e começou a pintar de improviso. Primeiro fez um Cristo, usando seu próprio rosto como referência. Uma obra-prima feita em menos de 15 minutos, com movimentos rápidos de espátula, sem o uso do pincel. Fiquei maravilhado. Ato contínuo, raspou tudo rapidamente e fez uma arte abstrata extraordinária e, depois, sem pestanejar, desfez tudo novamente com a espátula maior.
Atento à minha reação, ao certificar-se de que eu realmente tinha tomado consciência de sua capacidade artística ilimitada, sentenciou em tom monocórdio: “Ninguém nesse Brasil gigante ou na Europa quer saber dessa arte. Não vende! Eu tenho encomendas na Europa de paisagem com flamboyant floridos apenas.” Senti um certo ar de melancolia em sua fala.
Recentemente, quando a Univali promoveu no seu Espaço Multiuso uma exposição contendo obras de seis artistas que uma curadoria considerou os precursores da arte visual em Itajaí, lá estava eu diante de um quadro de Dinyz. Parado diante de sua obra me veio à mente a luminosidade da tela abstrata e a coroa do Cristo sangrando, as telas recusadas há quase 50 anos. Até hoje, quando vejo uma obra de Dinyz fico me perguntando: Como pode rejeitar obras tão extraordinárias? Tento de todas as formas compreender seu coração de artista, mas no meu íntimo fica aquela sensação de desperdício. Talvez Dinyz tenha realizado diante de mim uma das suas raras manifestações de protesto em relação ao mercado de artes.
Sem poder entender toda a complexidade de seu coração de artista me limito a guardar suas lições com carinho e admiração.

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com