Uma foto na parede

O retrato do presidente ditador João Figueiredo foi parar no banheiro da prefeitura

Antigamente um símbolo clássico do poder era o retrato ‘instalado’ na parede das repartições públicas. Chegava-se a fazer festas cívicas grandiosas para se ‘inaugurar’ o retrato de uma autoridade. Por isso mesmo, esses retratos muitas vezes eram alvos de protesto por parte de algum cidadão inconformado com a autoridade homenageada por força da lei.
Em Itajaí, por exemplo, tornou-se clássico o caso do retrato do governador Hercílio Luz colocado de cabeça para baixo na redação do jornal Novidades. Na Escola Alemã o retrato do Kaiser alemão, durante a Segunda Guerra, foi arrancado da parede e queimado em praça pública. Mas o caso mais interessante aconteceu na prefeitura de Itajaí na década de 1980.
Arnaldo Schmitt Júnior [MDB] venceu a eleição de 1982 e assumiu a Primeiro de Fevereiro de 1983 sofrendo toda a sorte de sabotagem por parte dos funcionários públicos municipais correligionários do antigo governo, bem como dos governos do Estado e União – todos vinculados à ARENA.
Não tinha chave para abrir armário, o caminhão ao ser ligado tinha o motor ‘fundido’ porque colocaram areia misturada ao óleo, o repasse da cota de participação de impostos estaduais e federais que Itajaí tinha direito não era efetuado… uma infinidade de pequenas malvadezas que tentavam, no dia a dia da administração, quebrar a determinação do novo governo.
Um dia, irritado com a notícia de que mais uma vez o Governo Federal estava atrasando a remessa de verba ao Município, colocando em risco o pagamento do funcionalismo público, Arnaldo olhando a foto do presidente João Baptista de Figueiredo que estava dependurada na parede de seu gabinete mandou a secretária retirá-la dali.
Acontece que o faz-tudo levou a foto do presidente para o banheiro do próprio gabinete do prefeito e por ali ficou um bom tempo. Arnaldo sabia que outras autoridades usariam o local, mas não se importou com as consequências, dada sua irritação para com o Governo Federal.
Estávamos ainda na vigência do ‘regime militar’ e a autoridade militar em Itajaí estava ao encargo da Capitania dos Portos. Como se era de esperar, porque a ditadura tinha muitos ‘agentes secretos’ [dedos-duros mesmo], a notícia chegou rapidamente aos ouvidos do comando da Capitania que ficava ao lado da Prefeitura.
O comandante ficou irritado com a informação e resolveu ir pessoalmente ao gabinete do prefeito averiguar a ofensa ao presidente Figueiredo. Mas, tentando evitar o pior, as duas secretárias [Capitania e Prefeitura] trocaram mensagens por telefone e a fotografia foi rapidamente levada para a cozinha que atendia ao prefeito.
Quando o comandante chegou ao gabinete, mesmo com a ausência do prefeito ele deu ordem para abrir a porta e entrou de supetão olhando diretamente para o local onde deveria estar o quadro. Não encontrando a foto presidencial foi até o banheiro, onde também não a encontrou.
A secretária o informou que a referida foto estava na cozinha, conduzindo o comandante até o local. Mais conformado com a situação, o comandante deu ordens para a secretária devolver o quadro para o local de direito.
[O texto contou com a memória de Adilson Amaral, Hélio Garcia dos Santos e Timbuca Júnior].

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