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Uma cidade sem identidade

Patiño com suas portas fechadas

Em pleno Natal de 2018 a população itajaiense recebeu a notícia de que a tradicional padaria da família Patiño havia cerrado suas portas em definitivo. Aquele estabelecimento comercial era uma referência no cotidiano dos moradores do centro de Itajaí há mais de 80 anos e sucumbiu à lógica perversa do mercado imobiliário – que tem a obsessão de devorar as coisas antigas para impor à cidade ares de modernidade. Uma modernidade sem alma, sem identidade, que sobe aos céus como pé de chuchu.
A Patiño juntava-se à Casa Irmãos Coelho no rol dos estabelecimentos comerciais que davam identidade às ruas da cidade. No lugar delas surgem prédios homogêneos, seriados, com o piso térreo abrigando filiais de grandes redes: Ricardo, Magazine Luiza, Lojas Bahia, Ponto Frio, Colombo, Pernambucanas… Não que a presença dessas redes comerciais seja novidade em nossa cidade, mas o que destacamos aqui é o número delas se sobrepondo ao comércio familiar local que tem nome e sobrenome.
No antigamente, Prosdócimo, Jaraguá, Hermes Macedo, Pernambucanas conviviam em simbiose com Casa Narciso e Giorama. Mas agora essa relação tornou-se predatória de tal sorte que as ‘espécies invasoras’ dominam o mercado e provocam a extinção do comércio familiar local.
As famílias Coelho e Patiño conferiam personalidade ao nosso centro comercial. Com elas nosso comércio tinha ares de família, de tradição. Esses estabelecimentos comerciais nos proporcionavam formas diversificadas de sociabilidades que iam muito além da simples venda de uma mercadoria. Com essas novas redes o comércio de Itajaí passa a ser um comércio de ninguém, como, aliás, já ocorreu anteriormente com nossa indústria e supermercados.
No antigamente você ia ao Banco Inco e conversava com o seu diretor. Hoje, falar com um funcionário já é difícil por conta dos caixas eletrônicos e aplicativos no celular. No Supermercado Vitória você falava com um Sandri e, no Comper, com um Pereira. Na venda da esquina você falava com o ‘Seu Marcelino’ ou com o ‘Seu Bento’. Mas quem é o dono da Makro, do Atacadão, da Panvel?
A Giorama dos Sada Graf deu lugar à Marisa e o Gilmar, Felipe, Beto saíram da rua Hercílio Luz para dar lugar à mais um comerciante desconhecido que sequer conhece Itajaí.
Assim, rapidamente, nossa cidade vai ficando sem alma, sem identidade, sem fisionomia. Uma cidade igual a todas as demais cidades de Santa Catarina. Quem anda pela rua Hercílio passa a ter a mesma experiência visual daquele transeunte que está no calçadão da Felipe Schmitt de Florianópolis. As redes comerciais roubam nossas tradições e nossa identidade. Somos mais uma cidade e já não temos alma comunitária.
As redes nos cercaram como cardume. Somos iguarias a serem servidas nos bons restaurantes da globalização.

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