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Uma cidade sem bancas de revistas

Banca Içá-mirim, na esquina da Joca Brandão, agora de portas fechadas

Dia desses fui até à Univali participar da vernissage da exposição do amigo João Wenceslau e recebi uma triste notícia ainda pelo caminho. Ao chegar à esquina da avenida Joca Brandão com a rua Uruguai deparei-me com as portas da ‘Banca Iça-Mirim’ cerradas, com um pequeno cartaz contendo a seguinte mensagem: ‘Aluga-se’.
A verdade é que o mundo está mudando muito rapidamente e a cidade acaba refletindo essa realidade de forma crua e direta. A fisionomia, e, até a alma, da cidade mudam. As antigas formas vão dando lugar a novas formas, sempre mais retas e voltadas para cima… preferencialmente impessoais. Mais radical ainda é a transferência que está ocorrendo do ‘mundo das coisas reais’ para o ‘mundo das coisas virtuais’. A banca de revista foi vitimada por esse tipo de mudança, com jornais e revistas saindo do papel e indo direto para um mundo das nuvens digitais.
A primeira imagem que tenho de uma banca de revistas está relacionada à ‘Banca Bona’ ali na rua Hercílio Luz. Eu vinha do bairro São João a pé, pelas ruas Blumenau-Tijucas e percorria um trecho da rua Hercílio Luz para entrar na rua Dagoberto Nogueira até o Colégio Salesiano. Ali, na rua Hercílio Luz eu tinha o compromisso diário de ler as manchetes dos jornais e revistas. Por longo tempo a minha preferência recaía nas capas do jornal Correio – do Elias Adaime –, sempre malhando o sarrafo no Governo Fred; e o impagável Pasquim.
Mas, uma a uma, as bancas foram sumindo das ruas de Itajaí, até que sobrou apenas a Banca Iça-Mirim – na Joca Brandão com Uruguai – de propriedade do ‘pai do Adison e da Edila’, o marinheiro aposentado Joaquim Antônio Pereira da Silva.
Sinceramente, fiquei chocado ao constatar que a banca Iça-Mirim havia fechado. Afinal, por longo tempo era ali que comprava meu exemplar da Folha de São Paulo, antes de entrar no campus da Univali para lecionar e, também era ali que, desde 1987, escutava as inúmeras estórias/histórias do seu Joaquim, dono de vastíssima memória elaborada nas muitas viagens pelo mundo.
Eu mesmo me sinto responsável pelo fechamento da Banca do Seu Joaquim, porque desde 2018 sou assinante de edições digitais do Diarinho, Folha e Estadão – esses dois últimos de São Paulo. Mas antes disso já havia sido assinante online do Jornal de Santa Catarina. Quer dizer, ao me aposentar, deixei de frequentar diariamente o entroncamento da Uruguai com Joca Brandão, de conversar com Seu Joaquim, de comprar jornais e revistas na Iça-Mirim. Mas mesmo não comprando mais jornais físicos ali, pretendia que a banca permanecesse para todo o sempre, como se bastasse a vontade do proprietário para mantê-la aberta. Eu, como leitor, migrei do papel para o digital e, esse meu gesto, ajudou a fechar a banca do ‘Seu Joaquim’.
Resta-nos agora convencer o Patrick Zaguini, da Banca Eureka, a permanecer firme como o último bastião dessa guerra entre os mundos físico e digital.
[O texto contou com as memórias de Timbuca Júnior e Sydney Schead dos Santos].

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