Teste de honestidade

Teste de honestidade

Houve um tempo em que a disputa política em Santa Catarina dava-se entre a UDN e o PSD. Pelo lado da UDN tínhamos o comando por parte de nomes expressivos da política itajaiense vinculados à oligarquia Konder [Marcos, Victor e Adolfo Konder, Irineu Bornhausen…], enquanto pelo lado do PSD tínhamos o comando por parte dos membros da Oligarquia Ramos de Lages. Naquele tempo era normal um grupo ‘aprontar’ armadilhas para cima do outro grupo, tentando auferir vantagens político-eleitorais. Foi numa dessas, quando Marcos Konder era diretor-gerente da Usina de Açúcar Adelaide S.A, que a turma do PSD tentou aplicar um golpe pra cima da turma da UDN.
Após a Revolução de Trinta a inflação ficou muito alta e determinados produtos acabaram tendo os preços controlados e o estoque regulado pelo Governo Vargas, considerando a questão alimentar como de segurança nacional. Era o caso do açúcar produzido em Itajaí pela Usina Adelaide dos Konder. Um dia, sem avisar, chegou um comerciante de Lages, estacionou o seu caminhão defronte à Usina e foi direto ao escritório de Marcos Konder querendo comprar uma ‘carga’ de açúcar. Nesse instante, segundo o escritor Nereu Corrêa, ocorreu o seguinte diálogo entre Marcos Konder e o empresário:
“Marcos – O senhor tem a quota fornecida pela prefeitura?
Comerciante – Não Coronel, não tenho.
Marcos – Então não lhe posso vender o açúcar…
Comerciante – Mas coronel, qual é o preço para 150 sacas?
Marcos – Cento e oitenta mil réis.
Comerciante – Pois eu pago cento e noventa, se o senhor me vender o açúcar independente de quota!
Marcos – Não, senhor, o preço é cento e oitenta, com a quota.
Comerciante – Eu lhe pago a duzentos, coronel !
Marcos – Não posso.
Comerciante – Mas coronel …
Marcos – Não, sem a quota não sai um quilo de açúcar daqui!”
Nereu Corrêa reproduziu esse diálogo no livro ‘Perfis e retratos em vários tons’ alegando tratar-se de uma prova inconteste da honestidade empresarial de Marcos Konder. Contudo, meu Vô Doca, garantia que essa história tinha outra trama e ela estava relacionada ao fato de Marcos Konder ter sido alertado por ‘amigos’ de que os Ramos estavam aprontando uma arapuca para prendê-lo por atentado contra a economia popular. O certo é que o comerciante voltou para Lages com o caminhão vazio e Marcos Konder ganhou destaque na crônica do conceituado escritor Nereu Corrêa por sua honestidade. Eis aí o feitiço virando contra o feiticeiro.

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