Superstição e poder

É comum acompanharmos nos jornais disputas por cargos em todos os níveis dos poderes públicos e das instituições não-governamentais. Mesmo quando estão em disputa cargos não remunerados podem ocorrer processos eleitorais truculentos ou pouco republicanos.
Mas, em duas instituições itajaienses, em determinado momento, todos os associados titubearam em assumir o cargo de presidente/diretor por questão de superstição.
Isso ocorreu com os dirigentes do Centro Itajahyense de Xadrez em 1927 e também com a Faculdade de Direito em 1968.
O Centro Itajahyense de Xadrez foi fundado em 1924 contando com um número acentuado de associados com grande destaque social na comunidade local. Acontece que em 1927 a instituição teve de fechar suas portas porque nenhum associado quis assumir a presidência. Morreram sucessivamente enquanto ocupavam o cargo de presidente do Centro os enxadristas Jacob Pinto e Sinval Seára. No final de 1926 o destacado enxadrista Demétrio João Schead fora eleito presidente, mas renunciou logo em seguida porque os amigos começaram a lhe sugerir que o cargo estava carregado com alguma energia negativa. Demétrio nem chegou a assumir e o Clube Itajahyense de Xadrez, sem presidente, sequer interino, acabou fechando suas portas logo em seguida. Meu vô Doca brincava com essa história que envolvia os jogadores de xadrez de Itajaí dizendo aos amigos em tom de conselho: “Faça o que bem entender, mas não jogue xadrez para não ‘intisicar’ o azar”.
O mesmo ocorreu com a Faculdade de Direito, na década de 1960. Diante de uma crise política sem precedentes o empresário Florisvaldo Diniz renunciou ao cargo de diretor. Sebastião Vieira Lins assumiu e pouco tempo depois faleceu vítima de enfarto. Foi substituído pelo professor Francisco Rangel, que também morreu em breve período de tempo. O professor Hélio Barreto dos Santos assumiu o cargo de diretor na condição de interino enquanto o prefeito Lito Seára procurava em vão um advogado destemido, que não levasse muito em consideração as superstições populares, para ocupar o cargo.
No final Lito Seára teve de se conformar em nomear o diretor da Faculdade de Filosofia – Mário Juarez de Oliveira – também como diretor da Faculdade de Direito, deixando-o na direção das duas faculdades até o final do seu mandato de prefeito. Mário aceitou o cargo, mas, segundo meu Vô Doca, ele despachava o máximo possível do seu escritório na Faculdade de Filosofia que era pra ‘não dar sorte ao azar’.

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