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O mundo politicamente correto

Humilhações com apelidos e zoações já foi algo considerado normal entre a garotada

Vez ou outra ouço alguém afirmar que o mundo de hoje é um mundo chato. Argumenta-se que não se pode dizer mais nada sem atentar contra valores de minorias politicamente constituídas. Estaria valendo aquele fenômeno que o educador Demerval Saviani intitula de ‘A curvatura da vara’ e que o dito popular sentencia como ‘ou oito ou oitenta’. Antes todos riam de todos e agora ninguém pode rir de ninguém. Mas aqui entre nós, é evidente que tivemos avanços em termos de humanidade pelo simples fato de que já não é mais possível ‘rir da cara dos outros’ e fazer dos seus defeitos objetos de brincadeiras. Claro que existem excessos, mas…
No meu tempo de criança o ‘politicamente correto’ não existia e isso permitia que se discriminasse tudo e todos de forma irresponsável e até cruel. Qualquer característica fora do padrão apresentada por uma pessoa era imediatamente destacada, servindo de motivo de deboche e riso geral, emplacando o apelido correspondente: palito, tucano, tampinha, vesgo, mãozinha.
Eu mesmo sofri drasticamente por conta de minha magreza. Os apelidos que recebia, na maioria das vezes me ofendiam e magoavam, deixando-me irritadiço e brigão. Não era fácil conviver com apelidos como: pau-de-vira-tripa, canudo de refrigerante, magricela, seco, palito. Hoje, qualificariam essa atitude grupal como bullying e a escola me ajudaria a neutralizar a ação indevida do grupo. Sofri tanto com isso que cheguei a escrever um opúsculo, ainda não publicado, intitulado ‘Bullying – confesso que sofri’.
Contudo, quando um moralista de plantão começa a discursar contra as letras funks e algumas artes e licenciosidades apresentadas pela juventude de hoje imediatamente me vem à cabeça as letras de algumas músicas que faziam parte do repertório de antigamente. Ainda quando criança cantava inocentemente a cantiga ‘Atirei o pau no gato-to-to / mas o gato-to-to / não morreu-reu-reu …’.
E isso não valia só para a cantiga de roda não! Na prática, era comum as crianças brincarem de torturar animais. Quantas vezes, nas festas juninas, colocávamos bombinhas e rojões amarrados nos rabos dos gatos e cachorros. A farra-de-boi era tradição e chicotear com força desproporcional os cavalos de carga e montaria era normal.
Na juventude cantava a música que fez muito sucesso na voz de Orlando Silva: ‘Abre a janela formosa mulher / e venha dizer adeus a quem te adora / apesar de te amar como sempre amei / na hora da orgia eu vou embora ….’. Era o mundo machista e patriarcal, onde o homem tinha direito de ir viver na esbórnia, enquanto a mulher ficava dentro de casa, quietinha no seu canto. Sendo assim, o mundo até pode ter ficado mais chato, mas ficou melhor para se viver por ser mais justo.

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