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O incêndio do Petrobras Norte

O incêndio do Petrobras Norte

Se você fosse desafiado a contar uma história bem interessante que teve oportunidade de ser testemunha ou até personagem, que história contaria? De tudo o que você já viveu, o que consideraria uma história digna de ser contada a seus amigos?
Pois, então! Na minha avaliação, a história mais extraordinária que tive a oportunidade de testemunhar foi o incêndio do Petrobras Norte, no terminal de gás de Cordeiros. Eu tinha oito anos de idade, morava na rua Max – uma rua de terra batida do bairro São João, próxima ao porto e o salão do Grêmio XXI de Julho. No final da tarde de dois de fevereiro de 1965, estava brincando com meus amigos no meio da rua – uma tradição na nossa época de criança – quando repentinamente os adultos começaram a mudar os seus comportamentos de forma muito estranha. Tinha gente correndo e tinha gente chorando; tinha gente rezando no meio da rua e tinha gente gritando que Itajaí estava ardendo em chamas.
Guardo na minha memória todos aqueles momentos de pânico e incerteza. Foi a primeira vez que senti realmente medo. Medo daquilo que não via ou sentia, mas que estava retratado nas expressões severas dos adultos. O episódio passa na minha cabeça como um filme: do instante que percebi o clarão no céu de Cordeiros, ao cortejo fúnebre de meu tio – Odílio Garcia – que para mim era simplesmente o tio distante dono do terreno onde plantava mandioca com Vô Doca e perseguia as galinhas do velho Lito Seára.
São momentos inesquecíveis. Todo mundo correndo pela rua Blumenau deixando para trás uma cidade que poderia estar condenada ao fogo. Os adultos falavam nos depósitos de combustíveis, das madeireiras e até do grande depósito de fumo que a Souza Cruz mantinha ali mesmo em Cordeiros. A noite chegava e o fogo, fingindo ser um sol eterno, teimava em manter a cidade às claras. Eu e meus irmãos fomos levados para a casa do Vô Doca, na Vila Operária e, no dia seguinte, estávamos diante de um drama familiar: Tio Odílio era tripulante do Petrobras Norte e estava à beira da morte no Hospital Marieta. A história terminava para toda a população itajaiense enquanto o drama da Família Garcia estava apenas começando. Lembro: foi o primeiro velório da minha vida.
Tio Odílio deu sua vida por Itajaí e deixou seu nome na História. Ciente da importância desse seu ato de total desprendimento busco, há bastante tempo, um lugar onde possa colocar em exposição permanente objetos de sua propriedade [documentos, caneta, fotos … ] para compartilhar com toda a comunidade. Infelizmente em Itajaí as instituições que guardam a memória de nossa comunidade ainda ocupam seus espaços prioritariamente com a história da elite político-econômica deixando à margem a história de seu povo. Mas o dia vai chegar em que a História de Itajaí não será apenas a história dos Konder, Banco Inco e a República de Cabeçudas.

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