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Lendas urbanas: a baixada do jacaré

Eu nasci em 1956 em uma localidade que ficava entre a Baixada do Jacaré, Coloninha e Barra do Rio. Mas era comum dizer que morava na rua Blumenau, porque a rua Max era uma transversal dessa importante via pública que servia de referência para todos que moravam na zona norte da cidade. Naquele tempo era difícil encontrar uma rua e localidade com nome oficial posto pela Câmara de Vereadores e o povo acabava inventando algum nome para utilizar como referência. A rua José Pereira Liberato, por exemplo, por muito tempo era conhecida como rua do Jacaré, rua do Rio Pequeno, Caminho dos Alemães.

Quando o padre Agostinho Stahelin chegou à Itajaí para catequizar na região atualmente conhecida como São João e São Vicente, em 1968, essas localidades ainda eram conhecidas como Baixada do Jacaré e Vassourão respectivamente. A região mais ao norte era conhecida historicamente como Barra do Rio, ao sul correndo a Rua Blumenau era a Coloninha, e a oeste o Rio Pequeno … O padre achou alguns desses nomes populares muito depreciativos, conforme seu testemunho em entrevista concedida ao Jornal do Povo de 16 de agosto de 1980: “Queria o nome das ruas e não existiam. Quando eu atendia no expediente o pessoal vinha e dizia: moro no Beco da Bananeira, do Sapo, do Cantagalo, do Chumbeiro, do Cepilho, do Abacate (…) quando fui registrar o terreno [da igreja] o local não era denominado Bairro São João e sim Bairro do Jacaré (…)”
Mas porque a área central do atual Bairro São João recebeu o nome de Baixada do Jacaré e a Rua José Pereira Liberato aparece em mapas antigos da Prefeitura com a designação de Rua do Jacaré? Quando pequeno eu ouvi dizer que esse nome fazia referência a um morador muito popular que tinha o apelido de Jacaré. Também ouvi dizer, ainda na década de 1960, quando estudava no Henrique da Silva Fontes e frequentava as missas do padre Agostinho, que o nome fazia referência à existência de jacarés nas áreas de banhado que foram sendo aterradas aos poucos. Meu Vô Doca apimentava essa segunda versão garantindo que realmente era comum encontrar jacarés nos banhados às margens do Itajaí Pequeno e que um em especial chamou a atenção de todo mundo: um jacaré que nasceu com o corpo de bezerro.
Muitos anos depois, lendo os jornais antigos guardados pela Fundação Genésio Miranda Lins, encontrei uma história/estória muito parecida com aquela que ouvira do Vô Doca, só que acontecendo em outro local da antiga Itajaí. Segundo o jornal: ‘Há dias, no sítio de Antonio Martins, na Pedra de Amollar, uma vacca deu à luz um bezerro que era um phenomeno teratologico dos mais curiosos. O corpo tinha a conformação natural, mas a parte superior d’este, como da cabeça, em vez de pellos, era coberta de escamas eguaes ás de jacaré. Apenas as pernas eram sem defeito.”
Jamais ficaremos sabendo se é história ou estória o que ouvimos sobre o nascimento de um jacaré-bezerro ou bezerro-jacaré, mas fica a convicção de que alguma coisa ocorreu de estranho no Itajaí de antigamente porque, como há muito já sabemos, o povo destorce mas não mente, aumenta mas não inventa.

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