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“O Capa Preta”

Lendas Urbanas: 
“O Capa Preta”

Lendas Urbanas: 
“O Capa Preta”

Dizem por aí que ‘o povo aumenta, mas não inventa’. Mas será que é assim mesmo? Será que o povo só dá um tom mais forte à história que está contando, sem incluir no enredo algo inventado ou imaginado? O folclore itajaiense é cheio dessas histórias que ganharam acréscimos populares: a noiva de branco na Barra do Rio, o morro que se movimentava para esconder dos aventureiros sua mina de ouro, o morto que não morreu, o capa preta, o bezerro com cara de jacaré … Todas essas estão guardadas na memória de nossas famílias e passam de pai para filho há muitas gerações.
Na Família Garcia, por exemplo, perdura há décadas a lenda do famigerado Capa Preta. Conta a tradição familiar que o empresário Ary Garcia, proprietário de um hotel na esquina das ruas da Igreja [Hoje Hercílio Luz] com da Vitória [Hoje Felipe Schmitt], na juventude dava-se também ao trabalho de exercer a atividade de inspetor de quarteirão. Foi nesse momento que apareceu por aqui um homem que atacava sorrateiramente, sempre se aproveitando da penumbra da noite, as mulheres que transitavam entre o Largo da Matriz [atual Praça Vidal Ramos] e a Rua Municipal [Atual Lauro Müller] depois da missa noturna realizada na Igrejinha Immaculada Conceição.
O povo, assustado, logo apelidou o tarado de ‘O capa preta’ e passou a lhe oferecer uma tenaz caçada. Mas ninguém conseguia encontrar sequer um suspeito para por diante do delegado, já que o meliante agia sempre acobertado pela penumbra da noite tendo o fator surpresa sempre em seu benefício. Diante desse fracasso e dos repetidos e cada vez mais constantes ataques, Ary Garcia e um amigo resolveram ir para o sacrífico total: passar noites de tocaia à espera do ataque do Capa Preta.

De tocaia, com espingarda e facão
Numa noite de lua cheia os dois amigos, bem armados com espingarda e facão, ficaram de tocaia esperando o término da missa na Igrejinha da Immaculada Conceição. Ficaram atrás de um muro de terreno baldio próximo da esquina das ruas Municipal [atual Lauro Müller] e 15 de junho [Atual Olímpio Miranda Júnior]. O povo saiu da missa e se espalhou rapidamente pela cidade, sem que um suspeito aparecesse às vistas dos dois amigos camuflados. A lua já ia alta quando escutaram um grito de mulher e puseram-se a correr pela Rua Municipal atrás de um homem vestido de preto. Em um determinado momento, quando considerou que estava perto o suficiente do alvo, Ary Garcia fez posição de tiro e simplesmente atirou. Mas o homem não foi encontrado mais naquela noite, desaparecendo na escuridão. Ary e o amigo pensaram que a tocaia também havia fracassado.
Mas, passada uma semana eis que aparece no restaurante do hotel um freguês bem conhecido de alcunha ‘Olho de Cobra’ mancando de uma perna e com severas dificuldades para se sentar. Tudo indicava que recebera algum ferimento nas nádegas. Ary não teve dúvida de que seu hóspede era o famigerado ‘Capa preta’, mas nada podia fazer por lhe faltarem provas. Semanas depois o ‘Olho de Cobra’ entrou em discussão com um conhecido no ‘Café’ instalado no Edifício Olímpio [hoje esquina das ruas Hercílio Luz com Lauro Müller] matando o coitado a facadas e evadindo-se rapidamente da cidade. A verdade é que depois da saída às pressas do facínora ‘Olho de Cobra’, as donzelas católicas da cidade nunca mais foram incomodadas pelo ‘Capa Preta’, o que colocou nossas autoridades policiais diante da convicção de que se tratava da mesma pessoa.

Como isca, foi vestido de mulher

Alguns amigos de Ary Garcia, que costumam ‘perder o amigo, mas não perder a piada’, garantem que o nome do companheiro de tocaia de Ary nunca foi revelado porque este havia se vestindo de mulher para atrair o ‘Capa Preta’ para a armadilha. Mas isso já é lenda urbana …
[História baseada nas memórias de: Hélio Garcia dos Santos, Cândido Antônio Garcia, Ary Garcia Miranda, Timbuca Júnior].

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