Goleiro, nunca mais!

Time do Barro, 59. Elinho é o primeiro agachado à esquerda

Eu era fanático pelo time de futebol do Clube Náutico Almirante Barroso. Meu ídolo era Élio Ramos [Elinho]. Na década de 1960, eu saía da rua Max, no bairro São João, e ficava na entrada do estádio do Barroso pela rua Silva esperando uma carona para entrar de graça. Naquele tempo as crianças grudavam no bagageiro de uma bicicleta fazendo se passar pelo filho do ciclista que pagou ingresso. Sempre dava certo e eu não perdia um jogo do Barroso. Era um timão, mesmo quando perdia para o Marcílio, o que quase sempre acontecia.
Um final de semana desses de muita chuva fui assistir o jogo do Barroso contra um time de Brusque. Eis que de repente o Elinho dá uma de grosso e desfere uma bicanca na bola arrematando-a em direção à arquibancada onde eu estava. Por instinto me levantei antes dos outros torcedores, estendi os braços e ofereci o máximo de resistência que pude para parar a trajetória da bola. A bola era de couro bruto, estava molhada e parecia que pesava uma tonelada.
Fiquei todo vaidoso porque tinha agarrado a bola chutada pelo ídolo barrosista. Também fiquei todo sujo e …. bem, torci os dois pulsos e fiquei dias com dores horríveis, sendo tratado pelo “médico da família”, o farmacêutico Emin, ali da rua Blumenau.
Passaram os anos e um dia encontrei o Elinho na secretaria do Clube de Campo Itamirim. Ele estendeu a mão para me cumprimentar e automaticamente lembrei daqueles dias em que sofri com dores pelas torções nos dois pulsos e alguns dedos devido a bicanca que ele deu na bola no jogo contra os brusquenses. Ele estranhou minha relutância em lhe estender a mão para o cumprimento e, por intermináveis segundos, ficou um clima meio esquisito entre nós: ele sem entender o que estava acontecendo e eu imaginando sentir novamente aquelas dores horríveis pelos dois pulsos torcidos. Parecia mesmo que estava sentindo dores piores que as verdadeiras e até me passou pela cabeça em dizer-lhe de forma direta ‘Grosso! Precisava dar uma bicanca?’ Coisas da mente humana… vai entender.
Até hoje guardo aquela bolada na memória. Na medida que o tempo vai passando a imagem parece que vai ficando mais nítida. Consigo ver mais detalhes da bola gomada, suja de lama com restos de grama grudados, pesada… imensamente pesada. Lembro da torcida barrosista em delírio por Elinho ter frustrado o contra-ataque adversário e a bola sendo ‘rifada’ entre diversos torcedores que demoravam para devolvê-la ao campo.
Foi nesse dia que decidi uma coisa na minha vida: goleiro nunca mais!

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