Cristo ou Tiradentes?

Entalhe foi feito pelo itajaiense José Bento Soares

‘De vez em quando’ al­guém resolve postar nas re­des sociais foto de um pe­queno entalhe existente em uma árvore na Praça Vidal Ramos e, sempre, causa mui­ta polêmica. Até o empresá­rio Cídio Sandri chegou a pu­blicar foto da pequena obra de arte como se fosse uma curiosidade secreta de Itajaí. A última vez que vi o tema sendo abordado na internet foi no grupo do Facebook ‘Itajaí de Antigamente’, ago­ra em 2019, e, como sempre, causando muita polêmica. Na medida em que a árvo­re vai crescendo, vai trans­formando o rosto esculpido, aumentando a polêmica por conta da imaginação fértil de alguns curiosos.

De certo o que sabemos é que a peça foi esculpida pelo eletricista José Bento Soares [Zequinha] no final da década de 1960 – prova­velmente entre 1967 e 1969. Ele costumava fazer baldea­ção nos ônibus coletivos de Itajaí em ponto da Praça Vi­dal Ramos que ficava na rua Eurico Krobel – defronte ao Casarão Malburg, atualmen­te Receita Federal. No tempo de espera, utilizando um pe­queno canivete e ferramen­tas de trabalho, resolveu es­culpir a face de Tiradentes que encontrou em uma nota de cinco mil cruzeiros. Lem­bro dele esculpindo a árvore. Tinha meus 15 anos de idade e frequentava o local porque pegava o ônibus para Cabe­çudas onde minha família mantinha uma pequena casa de praia.

Segundo relatos de seus filhos – Cirlene e Jocelito So­ares – ele também chegou a iniciar o entalhe da face de Santos Dumont que encon­trou na nota de 10 mil cru­zeiros, mas não o finalizou porque mudou de trabalho e não utilizou mais aquele ponto de ônibus na Praça Vi­dal Ramos.

Esse pequeno fato e a lon­ga polêmica que suscita nos serve de referência para re­fletir sobre algumas ques­tões que envolvem a memó­ria da cidade. Primeiro que as pessoas dão valor para algumas coisas sem medi­rem sua verdadeira impor­tância sócio-econômica. Se­gundo, estabelecem suas próprias versões dos fatos, o que possibilita que o ros­to de Tiradentes passe a ser o rosto de Cristo. Terceiro, essas versões são reproduzi­das por outros à exaustão, a ponto de não se saber mais o que é verdade e o que é pura imaginação. Sendo as­sim, o pequeno entalhe que o eletricista José Bento So­ares elaborou despretensio­samente em uma árvore da Praça Vidal Ramos passou a ser uma misteriosa face de Cristo dando azo à imagina­ção popular por décadas.

Quantos fatos que man­temos como verdade históri­ca não passam pelo mesmo processo? Por isso que mui­tos pensadores consideram a história como parte integran­te da literatura ou, no míni­mo, como uma ‘disputa de narrativas’ que bem pouco tem a ver com a verdade

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