Home Colunistas Coluna Histórias de Itajaí A‘santa ceia’ e o ‘mula sem cabeça’

A‘santa ceia’ e o ‘mula sem cabeça’

A‘santa ceia’ e o ‘mula sem cabeça’

Ao longo dos tempos a população itajaiense conviveu com alguns grupos mais fechados que se constituíam como a elite da elite. Eles se distinguiam entre todos como se estivessem em um castelo no cume de um outeiro. Mas o povo não perdoava e, por vingança ou chiste, acabava batizando o grupo sempre em tom de brincadeira. Assim surgiram grupos com nomes como: A República de Cabeçudas, A Santa Ceia, A Santíssima Trindade e Os Cavaleiros do Apocalipse. Mas a cidade também nos apresentou ao passar dos anos com algumas figuras que brilharam sozinhas como um ‘Dom Quixote de la Mancha’ ou a ‘Mula sem cabeça’.
O mais famoso desses grupos foi ‘A República de Cabeçudas’ liderada pelo governador Irineu Bornhausen e os industriais do Vale do Itajaí acionistas do Inco – Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina. Depois de algum tempo o nome passou do campo das facécias para o de status máximo da elite catarinense. Até hoje alguns ainda olha em direção à Cabeçudas e vaticinam: ‘Eis nossa República! A República de Cabeçudas!’ Era como se ‘A Pequena Pátria’ de Marcos Konder tivesse sofrido sua ‘Revolução Liberal’ e decretado a República a partir da pequena Cabeçudas.
Outro grupo que marcou história em Itajaí foi intitulado de ‘A Santa Ceia’. Liderado pelo influente político e editor do Jornal do Povo – Abdon Fóes – o grupo tinha uma mesa cativa nos eventos da Sociedade Guarani. Ela ficava à esquerda de quem adentrava ao salão, de forma que ninguém pudesse fazer de conta que não estava vendo suas figuras proeminentes. Constituíam a ‘Santa Ceia’: Juca Schmitt e esposa Jaci; Cesar Pereira e esposa Yvonne; José Bonifácio Malburg e Celinha; Arnaldo Heusi e esposa, Abdon Fóes e Lilli. Esporadicamente aparecia por ali o casal Irineu Bornhausen e Marieta.
O terceiro grupo é aquele constituído pelos históricos de nossa política: Nelson Heusi, Paulo Bauer e Lito Seára. Em determinada época os três não perdiam um evento social de Itajaí. Sempre trajando terno completo – o Nelson com seu cravo na lapela – chegavam e, para alegria da claque, alguém murmurava em tom jocoso: ‘Podemos começar a cerimônia que a Santíssima Trindade acaba de chegar’.
Por último lembro dos ‘Cavaleiros do Apocalipse’. Um grupo integrado pelos rebeldes Elias Adaime, José Eliomar da Silva [Timbuca] e Dalmo Vieira. Eles eram reconhecidos na cidade por suas penas afiadas sempre apontadas para os olhos dos opositores políticos. Das páginas do pequeno jornal ‘O Correio’ ao grandioso ‘A Nação’, saíam sempre críticas mordazes aos adversários políticos. Quem mais sofreu nas mãos da trinca, principalmente de Elias Adaime, foi o prefeito Frederico Olíndio de Souza.
Na imprensa ainda tinha o JOMASO – proprietário do jornal O Popular. Ele era nomeado por alguns de ‘Dom Quixote de la Mancha’. Mas era um solitário que não tinha o prazer de compartilhar sequer da companhia atabalhoada de um Sancho Pança. Agora, temos em Itajaí um figuraço semialfabetizado que escreve sobre tudo, inclusive livros sobre a história de Itajaí. Já tem gente falando tratar-se da ‘Mula sem cabeça’. Mas isso é presente, e faz-se necessário que o presente vire passado para que possa ser assunto de nossos artigos. Deixemos, portanto, a mula vagar pelos pastos da cidade sem ser incomodada.
[O texto contou com a memória dos leitores Hélio Garcia dos Santos, Cândido Antônio Garcia, Paulo Malburg e Timbuca Júnior].

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