A ronda da madrugada

Na década de 1970 a polícia Militar fazia ronda com uma baratinha

Nos tempos de chumbo da ‘Ditadura Militar’, que em Itajaí era uma ditadura civil da Arena, na década de 1970, ainda não existiam câmeras vigiando diuturnamente as ruas e muito menos os celulares nas mãos de cada cidadão. Encoberta pela monotonia da noite muita gente aprontava suas peripécias na certeza de que no outro dia não iria aparecer nas manchetes dos jornais. A bem da verdade todos aprontavam na madrugada: bêbados e prostitutas, polícia e ladrão, e, principalmente, os jovens da classe abastada que tendo pouco para se entreter na modorrenta cidade do interior, acabavam achando muito divertido por fogo nos latões de lixo ou colocá-los no meio da rua para atrapalhar o trânsito. Era o tempo que a polícia fazia sua ronda da madrugada em um fusca – popularmente denominado de baratinha.
Certa feita, um grupo de pescadores de Santos, cujo barco estava descarregando em uma empresa de Itajaí, resolveu curtir a noitada no centro. Depois de frequentar diversos locais, a turma foi beber e matar a fome no Restaurante Marilu – que ficava na Manoel Vieira Garção. Os pescadores beberam e comeram à vontade e depois resolveram sair sem pagar, tentando aplicar um velho golpe de estudante.
Um a um, disfarçavam que estavam indo ao banheiro e de lá pegavam o caminho da rua. Já estavam na maior da alegria, comemorando o feito de ter aplicado o surrado golpe do banheiro nos proprietários do Marilú quando foram alcançados em plena rua Camboriú por uma ‘baratinha’ da Polícia Militar.
O grupo foi encostado contra o muro de uma residência, todos os seus integrantes com os braços para cima, devidamente revistados. O proprietário do Restaurante Marilú informou à polícia sobre um prejuízo de trezentos cruzeiros. O valor foi rapidamente recolhido nos bolsos dos golpistas e utilizado para cobrir as despesas. A vítima estava saindo do local, considerando que o episódio estava encerrado com o devido ressarcimento, já que sequer pretendia registrar Boletim de Ocorrência na Delegacia de Polícia, quando assistiu a um episódio inusitado.
Um dos policiais mandou todos os integrantes do grupo tirarem as calças e ficarem só de cuecas. Não satisfeito, deu ordens para que se dessem as mãos e cantassem a tradicional cantiga infantil ‘ciranda-cirandinha’. Quem viu garante que foi um espetáculo digno de uma peça cômica de teatro: cinco pescadores barbados, de mãos dadas, só de cuecas, em plena rua Camboriú, rodando e cantando históricas cantigas infantis.
Como podemos constatar não eram só câmeras, celulares e internet que faltavam naquele tempo em que a ditadura era cruel, até mesmo quando pretendia nos fazer rir.
[O texto contou com as memórias de Hélio Garcia dos Santos, Timbuca Júnior e Nilson Weber].

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