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É o poder, estúpido

Infelizmente, o sistema político brasileiro não conseguiu a pacificação que muitos imaginavam/queriam e viria com a redemocratização do país. Nem mesmo com a Constituição Cidadã de dr. Ulysses os políticos sentaram para, pelo menos, decidir as regras das disputas que viriam. Até hoje, o que se discute não é qual o melhor projeto para o país, ou quem tem mais condições de tocar o melhor projeto para o país. O “eles e nós” é muito mais profundo na nossa ‘brancaleônica’ democracia do que a vã filosofia das redes sociais – não quem é o certo ou o errado. É quem detém o poder ou não é que interessa. Entre Moro e a Lava Jato e os atingidos pela operação, eu sou mais o Brasil…

DECRETOS-LEI, OU MP
Dizem que a PEC que muda as regras da tramitação de Medidas Provisórias é complicada porque vai exigir que os políticos façam… política. As Medidas Populares são filhas dos Decretos-Leis com os quais os governos da ditadura militar dispensavam a análise do Congresso Nacional para providência que consideravam urgentes. A manutenção deste “instrumento” nunca foi bem explicada. E também nunca foi questionada pelo governo de plantão. É mais um “jeitinho brasileiro” – só que, desta vez, para dar um “driblezinho” na Democracia. As perguntas são várias, mas tem uma crucial: por que não acabam logo com esse resquício da ditadura? O fim da MP com certeza contribuiria para o equilíbrio e para a harmonia entre os dos Poderes – quiçá os três.

FRAUDE RACIAL
A prestigiosa Universidade Estadual de Campinas (SP) – Unicamp está vivendo momento de denúncia e investigação internas de fraudes no seu sistema de cotas raciais. Esse tipo de fraude tem a mesma idade das primeiras cotas para estudantes pretos em universidades brasileiras. Na Unicamp as vagas para cotas étnico-raciais passaram a ser oferecidas a partir do primeiro vestibular de 2019, e já teve fraude. A instituição ofereceu 3340 vagas, das quais 25% foram destinadas às cotas étnico-raciais. Para ter acesso à medida, o estudante precisou assinar uma declaração no ato da matrícula confirmando que ele é preto ou pardo. É nesse momento que se consuma a fraude. A Lei de Cotas ampliou em 39% a presença de estudantes pretos, pardos e indígenas vindos de escolas públicas nas instituições federais de ensino superior entre 2012 e 2016, aponta estudo ainda inédito do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Já o critério de baixa renda da lei mostrou-se pouco efetivo, por incluir mais de 80% dos estudantes que prestam o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Esses números servem de alerta contra a fraude racial. A tendência da Unicamp é seguir o exemplo de 18 outras instituições de ensino em todo o país, que estão combatendo as fraudes com a instalação de uma banca de étnico-identificação.

SEMANINHA AGITADA
A semana na política começou quente, com a divulgação das matérias do The Intercept sobre a Lava Jato. Claro que este tema vai dominar os debates dentro e fora do Congresso, na imprensa dentro e fora do país e nos botecos. A oposição já tinha convocado mais uma greve geral para a próxima sexta-feira, e vai esquentar o assunto da Lava Jato com a esperança de conseguir sua greve. Nesta terça-feira, governo e oposição vão se bater pela votação dos créditos suplementares. É uma dívida de 248,9 bilhões de reais que o Poder Executivo precisa de autorização do Congresso para contrair, para cobrir despesas correntes, como a Bolsa Família e o Plano Safra. O impacto de uma negativa do Congresso pode ser maior do que o as conversas de Moro. Não bastasse, governadores realizam em Brasília nesta terça-feira o seu Fórum dos Governadores, e pauta única é a reforma da Previdência que eles querem, não a do governo. Como se sabe, o foco da discussão da Previdência não é a reforma em si, mas os seus reflexos nas próximas eleições. Na sexta, o Banco Central divulga um pequeno crescimento do IBC-Br, prévia do IPC. E volta a pergunta? Por que o ministro Paulo Guedes, enquanto toca a Previdência, não adota medidas para impulsionar a economia? Temer fez isso e esta não foi a razão pela qual o ex-presidente não aprovou sua reforma da Previdência.

PRESIDENCIALISMO DE COLISÃO
O cientista político Melillo Dinis, do portal Inteligência Política, de Brasília, cunhou a expressão que deve povoar os debates políticos daqui para frente: Presidencialismo de Colisão. Segundo Melillo, o novo modelo político brasileiro coloca no centro das relações políticas a figura do “inimigo”. O cenário é de beligerância, conflito, guerra, tiro, porrada e bomba. O Presidencialismo de Colisão é oriundo do “nós contra eles”. Ele acentua a intolerância política e, a seguir seu rumo e ritmo, vai alcançar o fanatismo…

* Eduardo Badu é Jornalista, consultor de comunicação política em Brasília

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