O teto de cada um

As datas mais significativas costumam ser lembradas nas redes sociais. Quase todas as manhãs nos deparamos com alguma data, alguém a ser lembrado, celebrado. Passamos pelo dia das mães, do amigo, dos avós e é dia dos pais daqui alguns dias. São como lembretes de que família são os que se importam, cuidam uns dos outros e isso justifica as mensagens de carinho nestes dias específicos. Propagandas em jornais, rádios e TV também refletem as lembranças com as empresas que desejam deixar sua mensagem ao público. As propagandas buscam emocionar, pois o que guardamos na memória tem relação com o tipo de emoção que sentimos. Alguns podem alegar que não se deveria ter um dia específico para tais comemorações, pois mães, pais, avós, amigos, deveriam ser lembrados todos os dias. O argumento é bom, não fosse pelas nossas limitações em não conseguir atender demandas afetivas como gostaríamos, especialmente com os mais próximos, os familiares, pela dinâmica da vida, do tempo e de cada um. Por isso, quando há lembrança, há sentimentos reativados, vontades que são provocadas para que direcionemos algum tempo do dia para lembrar de alguém, e poder se emocionar em saber de tantas histórias familiares que fazem a gente aprender mais sobre a vida, mais sobre o outro e mais sobre nós mesmos.

Cada um tem uma lembrança diferente, com experiências e aprendizados, suas provas e expiações. Uns sentem saudades, outros lembram com alegria, outros se deparam com algum conflito, pois talvez aquele familiar esteja distante, separado por mágoas acumuladas. Nestes dias uns oram, outros riem-se, outros choram, na imensidão de histórias familiares que cada um de nós tem e que explicam quem nós somos.

Nossos antepassados viviam sob o conceito de clã,  (do Gaélico KLANN), “família, descendência, crianças, raça”; que vem ainda do Latim planta, “broto, muda de planta”, viviam como família os que se ligavam a um ancestral comum, o avô ou avó do avô por exemplo e todos os que dele eram originados. Como galhos que seguem sempre ligados ao seu tronco de origem. Neste sentido, a antropologia nos ensina que há milhares de anos nossos antepassados saíram da África para povoar o mundo, assim, todos somos afrodescendentes no grande clã da família humana.  O sentido de irmãos quando olhamos o próximo na cultura cristã faz de nós todos familiares uns dos outros.

Da palavra família mesmo, é interessante saber que vem do latim “famulus”, conjunto de servos, que viviam sob o mesmo teto. Família, portanto, eram os que se abrigavam sob o mesmo teto. Evoluímos desde então, e podemos dizer que hoje, família são os que se amam, indo além do conceito genético. Os que se ligam pelos elos do afeto, da afinidade de algum tipo, duradoura, perene, mesmo sem estarem no mesmo teto.

Cada família com sua formação, há os que tem pais, mães, avôs e avós vivos e próximos que conseguem manter aproximação, outros que cresceram sem pai, ou sem mãe, criados pelos avós, ou aqueles que buscam sua identidade em meio à adoções afetuosas, outras famílias às vezes distantes, cada célula em uma região, e o tempo passou, alguns se foram, outros nunca vieram, mas ainda, e sempre, família. Não raro é uma avó que cuida dos netos como se seus filhos fossem. Inúmeras famílias em segundo relacionamento, com filhos vivendo como enteados e todos aprendendo a conviver como família, debaixo do mesmo teto ou separados pela distância. Muitas crianças têm pais ausentes, distantes, e podemos ver que quando a escola chama as famílias para as reuniões escolares, chama o evento de reunião de pais, mas só vão as mães! A família unida tem mais força que a soma dos seus indivíduos. E quanto mais próximas as famílias possam ser, melhor fica a vida, o desempenho na escola, a paz no bairro, a escuta de um político.

Espiritualistas e religiosos acreditam em família espiritual, que inclui parentes e amigos, até os que já partiram mas que, com a continuidade da vida, permanecem vinculados pelos laços do afeto espiritual. Isso explica a simpatia natural por alguém que mesmo não sendo do seu sangue, é tua família pelos laços do sentimento.

Há também pessoas que se juntam em uma atividade social, abrigo de animais, revitalização de praças, educação para crianças, e quando juntos naquele objetivo, são uma família, sob o teto da afinidade no trabalho social.

Há os que se unem num empreendimento, um produto, uma inovação, que possa melhorar a experiência de consumo da sociedade, e enquanto engajados em atender as pessoas são como a família, abrigados sob o teto da oportunidade.

Há os que servem educando, atendendo a saúde das pessoas, que enquanto no abençoado ofício, suando e sonhando para transformar vidas, são como uma família, unidos pelo teto da vontade de fazer do seu trabalho algo essencial para todos.

Pessoas sob o mesmo teto; provenientes do mesmo afeto. Que transcendem as ligações genéticas ou hereditárias, somos todos família, cuidando uns dos outros.

Há na psicologia a terapia que trouxe o conceito de constelações familiares, criada pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, para refletir sobre padrões de comportamento das famílias. O quanto impactamos e somos impactados por um familiar nos mais diversos níveis de afeição que nos unem. Sim, família pode ser a dimensão das pessoas que influenciamos e por quem somos influenciados ao longo da vida.

Uma mãe de uma linda criança portadora da síndrome de Down disse em reportagem recente na TV, que a família deveria ter um código e decretar em seu artigo primeiro: “que todos da sua família sejam felizes. Sempre.” Dá pra perdoar antigos embates e seguir em frente. Dá pra transformar uma saudade em esperança na continuidade da vida, dá para tolerar divergências sem criar dissentimentos, porque são com estas famílias todas que crescemos e desenvolvemos o que somos.

As pessoas de um mesmo bairro, de um município, são uma família, debaixo do teto do céu que ilumina a cidade, que vive e vibra pra que todos possam estar bem, com todos cuidando uns dos outros.

 
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